domingo, 20 de julho de 2014

O Som de um Piano

O que é este som que ouço?
Daqui, deste interno calabouço?
Seria algo assim?
Tocado por teclas de marfim?
.
O que ouço é uma marcha,
Uma melodia orquestrada.
Ouço um piano, forte como uma mancha,
E ao mesmo tempo tão suave quanto uma doce caramelada.
.
Sons finos, sons graves,
Fazem com que eu trave,
Fazem com que eu imagine coisas,
Coisas que me agradem.
.
Me deixa mais calma,
Me deixa menos ansiosa,
Consigo assim lembrar,
Da minha pessoa preciosa.
.
Lembro-me da angústia que sinto,
Quando alguém não consigo ajudar.
Lembro de minha vontade de chorar.
Lembro de minha vontade de me cortar.
.
É uma digna mistura de sentimentos,
Tantas memórias, tantos acontecimentos,
Parece até que dançam pelo vento,
Me distraio apenas vendo.
.
A sensação que te dá,
Naquelas teclas tocar,
As vezes me fazem delirar,
Mas o prazer de ouvir..
.

É simplesmente algo que eu não posso recusar.

Entredentes.

Essa dor,
Tão incessante.
Tão agonizante.
Faz-me chorar e me perder em pensamentos.
Faz-me lembrar das coisas que me fazem gritar entredentes.
.
Tudo é uma questão de minha mente,
Que se enrola com coisas dementes,
Criando alucinações
E coisas que me fazem gritar entredentes.
.
Sinto minhas lágrimas caírem,
Formando um percurso reto em minhas bochechas,
Deixando minha tristeza eminente,
Coisas que me fazem gritar entredentes.
.
Logo elas secam
E minha pele fica com uma sensação estranha.
Logo abro um sorriso alegremente
E me esqueço das coisas que me fazem gritar entredentes.
.
Se perceberes bem,
Estou quase sempre sorrindo,
Quase sempre me abrindo, quase regularmente
Deixando com que outros saibam as coisas que me fazem gritar entredentes.
.
Preferi tentar ser feliz.
Preferi parar de chorar no canto dos lugares.
Preferi desistir de tudo que me era ruim.
Desistir das coisas que me fazem gritar entredentes.



Memórias Congelantes

Capítulo 1: Prólogo

“Branco. Tudo branco, com uns detalhes em azul cristalino, combinados com um sufocante e incessante frio. A Terra chora, sofre, grita. Está congelada.
Mas assim é perfeito. É o mundo dela. É o mundo da Deusa do Inverno.  Tirana, infantil, invejosa e curiosa; é como se uma criança mimada assumisse o trono de um reino inteiro. Ninguém ousa desafiá-la, e se ousasse, nunca mais se ouviria seu nome. Nunca mais se encontraria o seu corpo. Nunca mais seria lembrado.
Frio é o nome dela, combinando com tudo que se passava por três longos séculos.
Não era assim antes. Ah, de jeito nenhum que era.
Afinal, no início, havia mais cinco deuses.
Os dois supremos se chamavam Loyan e Mayan, deuses do dia e da noite. Marido e mulher. E seus filhos, do primogênito a última, eram os deuses do verão, do inverno, do outono e da primavera. Seus nomes, conhecidos por entre todas as regiões e continentes do mundo, eram Liad, Frio, Mirante e Kirla.
Liad, o único filho homem, de uma coragem e amor profundos.
Frio, a primeira filha, de uma curiosidade e criatividade imensas.
Mirante, a penúltima, de bravura e perseverança eternas.
Kirla, a caçula, de gentileza e carinho sem fim.
Ah, o mundo era bom. Era perfeito.
Mas a perfeição se desfez por causa da inveja de uma criança. Por causa do coração impuro e mal que se desenvolveu na deusa do inverno, a segunda mais velha. Por tantos milênios, tantos séculos passados sem que lhe fosse dada grande importância, tanto tempo em que passou presa em seu próprio pensamento, um sentimento de revolta crescia em sua alma.
Todos tinham sua importância, claro, mas Frio se recusava a ver a sua. Mesmo que sua mãe lhe confortasse e com sua irmã caçula brincasse, nada a satisfazia. Queria o trono. Precisava dele. Queria que a atenção de tudo e de todos fosse sua, que tudo que existisse lhe pertencesse, e não apenas dois polos de neve num mundo enorme.
Um a um, matou quem pudesse lhe dedurar. Um a um, congelou-os sem pensar. E num momento em que seus poderes engrandeceram, num momento em que tudo estava por uma fina camada de gelo, uma grande avalanche perseguiu e matou a quase todos. Mirante e Kirla puderam sobreviver, mas nenhuma fazia ideia do que estava acontecendo. Tinham consciência de que aquilo poderia ser obra de sua irmã, mas recusavam-se a acreditar nisso.
Mas puderam ter certeza de tudo ao virarem-se para trás e virem, flutuando, a deusa do inverno. Com um sorriso maligno e branco estampado em seu rosto, com as cabeças congeladas de seus pais e de seu irmão mais velho em suas mãos.
Mirante, sem conter sua raiva, obviamente foi para cima, forçando Frio a jogar as cabeças num lugar qualquer e lutar com ela, deixando Kirla, a mais inocente, sozinha naquele pesadelo gelado em que se encontrava. Ela tremia, sentia frio, estava praticamente paralisada no mesmo lugar. Caiu de joelhos e passou a gritar, mesmo sem muita voz. Pôs as duas mãos em seus olhos, se dizendo que tudo não passava de uma ilusão, de um sonho ruim.
Mas, depois de uns curtos minutos, pôde ouvir alguém se aproximar. Era um barulho de passos, obviamente, mas eram passos tão suaves que mais pareciam estar a flutuar.  Olhou para cima, retirando as mãos que lhe fizeram de venda.
Não se sabe o que houve com Kirla, muito menos o que foi feito de Mirante. Só se sabe que a Deusa do Inverno venceu esta batalha. E até hoje, depois de três séculos, ainda se encontra em seu auge.”
-...Todos os pergaminhos dizem a mesma história. Mas têm detalhes diferentes... – Disse a cavaleira, fechando o pergaminho que tinha em mãos.
-Sim, senhorita, mas este é o mais recente.  Foi escrito por alguém da Cidade do Norte, inclusive! – Disse o vendedor, tentando convencê-la a levar o artefato para si.
-Da Cidade do Norte, huh?
-Floretta! -
-Hm?
-A r-rainha está te chamando.. – Disse o pequeno mensageiro, Menphis. Uma criança ainda.
Floretta devolveu o pergaminho ao vendedor, e calmamente andou ao lado da criança até onde a monarca se encontrava. Não foi uma caminhada muito longa. Somente uma meia hora foi o necessário. Já conseguia avistar o palácio. Continuou andando, mesmo que seu nome fosse clamado pela população de Soultinder. Afinal, ela era a mais forte cavaleira dali. Sempre acompanhada de sua montante lendária, Morkch.
-Ah, é aqui que me despeço, Floretta!
-Até mais, Menphis. Não vá se meter em encrencas, tudo bem?
Floretta também era conhecida por sua simpatia com crianças. Suspirou de leve e entrou no palácio. Recebendo cumprimentos e reverências de seus subordinados cavaleiros e soldados, mas não chegou a responder todos. Não conseguiria com aquele tanto de gente. Caminhou e caminhou, até finalmente chegar até a sala do trono. As grandes portas se abriram para a cavaleira ruiva, que sem demoras adentrou e se ajoelhou em frente a mulher que possuía uma coroa.
-Tenho uma nova missão para você, Floretta, minha cavaleira rosada. – Disse a rainha, com voz suave. – Entregue isto na cidade do norte. – Olhou para um dos guardas ali presentes, que possuía uma pequena caixa em mãos.
Floretta levantou a cabeça para saber o que seria, e viu o guarda se aproximando. Pegou o objeto em mãos logo em seguida e voltou a olhar para baixo.
-Posso saber o que se encontra por dentro da caixa, minha rainha?
-Cartas, Floretta. Documentos e afins. Precisam ser entregues rapidamente ao rei da Cidade do Norte.
-Será uma jornada bem difícil, majestade. A senhora sabe como a viagem para lá é...E como as pessoas de lá são.
-Eu sei, minha jovem. Mas eu confio em você. Tenho certeza que não falhará comigo.
-Sim, majestade.
-Pode se retirar.
A cavaleira se levantou e virou-se de costas, começando a andar novamente, em direção do seu próprio lar. Estava, de fato, deveras curiosa para abrir a tal caixa e ver se o que a rainha disse era verdade. Que eram apenas cartas e documentos. Afinal, já foi vítima de suas mentiras mais uma vez. Não por sua vontade, claro. Era obrigada a obedecê-la, pois era a única forma que tinha de sustentar sua família. Especialmente sua mãe, tão doente.
Partiria pela manhã.
Não demorou tanto para anoitecer. Apesar de o dia ser praticamente tão escuro quanto. Esse céu permanentemente nublado não ajudava tanto a distinguir um do outro. Antes de sair do palácio, foi até o estábulo, ver como sua égua estava. Brisa foi o nome que deu à ela. Tirou-a dali e foi com ela até em casa. Assim a caminhada não a cansaria muito e deixaria seu irmão brincar com Brisa.
-Mãe, pai, estou em casa.
-Floretta, Floretta, olha o que desenhei! – Disse a criança, seu irmão menor, com o mesmo nome do antigo deus do verão.
-Ah, que bonito, Liad. O que é?
- É a Brisa!
- Ela está simplesmente fabulosa, Liad. – Bagunçou um pouco os cabelos castanhos do menino, sem se importar com a careta que ele fez. 
Logo se dirigiu ao quarto de sua mãe, e ajoelhou-se ao lado da cama em que ela estava deitada.
-Mamãe? Está acordada?
-Sim, querida. Como você está?
-Estou bem, obrigada. Eu só vim avisar que eu vou em outra missão amanhã.
-Outra? Já é a 15ª dessa semana, Floretta!
-Eu sei, mamãe, mas eu não posso contestar a rainha, posso?
-Essa rainha, viu? Parece mais com a Frio do que com uma humana normal.
-Shh, mamãe. Não fale o nome dela. Sabes que ela escuta tudo.
-Eu sei, querida, eu sei. Mas eu já estou velha, não tenho que me preocupar muito com isso.
-Não fale assim.
-Quando você vai partir?
-Amanhã de manhã. Preciso ir à Cidade do Norte para entregar isso.
-À Cidade do Norte?
-Sim.
A mãe de Floretta fez uma careta.
-Eu sei que é perigoso, mas eu tenho Morkch comigo. Eu treinei para isso, mamãe.
-Tome cuidado...Você é a única que tenho..
-Liad e o papai cuidarão bem da senhora, mamãe. Não se preocupe.
Dito isso, a conversa foi encerrada. Floretta fez os preparativos para sua partida na manhã seguinte, sem saber quantos dias levaria, ao certo, para chegar ao seu destino. A Cidade do Norte era grande e seus arredores eram repletos de lugares perigosos. Especialmente o Labirinto de Espinhos. Aquilo sim seria difícil de se atravessar. Mas bem, não era bom pensar nisso agora, certo?
-Certo..
Pouco a pouco, tudo foi se encontrando, tudo foi se resolvendo, e em questão de horas tudo o que Floretta precisava estava devidamente separado. Então, tal como o resto de sua família, dirigiu-se a seus aposentos e dormiu.
De manhã, estranhamente foi a última a acordar. Levantou-se e vestiu-se adequadamente, com sua armadura e roupas de frio, saindo de dentro do quarto em seguida. Alimentou-se e foi para fora da casa, indo em direção a Brisa. Não gostava de despedidas. Suspirou e se desejou sorte, e assim cavalgou até a fronteira da cidade. Por onde passava, as pessoas que estavam acordadas lhe desejavam boa sorte e a aclamavam, desejando mais uma vitória. Mas Floretta sabia que não seria nem um pouquinho fácil.
E tinha um pressentimento estranho, também...

O que será que lhe aguarda na Cidade do Norte?