segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A Caixinha de Música

Numa fria tarde de inverno, há alguns anos de hoje, existia uma família chamada Alistair. Os Alistair eram muito pobres, e quase todo ano eles comemoravam o Natal assim: Sem comida, convidados, presentes ou até mesmo alegria.
Especialmente para a pequenina Emilly, a filha do casal. Ela não era lá uma criança calma, e seu pai também não era lá boa pessoa. O pai era um bêbado e a pequena Emilly era simplesmente a criança mais egoísta de todo o bairro. Havia sua mãe também, e esta era a única que se salvava dessa família maldita. Ela era muito, mas muito gentil.
Algumas outras crianças, por dizer, suas inimigas, para zoarem com sua cara, de vez em quando botavam carvão ao redor de sua pequenina, quase sem nada, casa, enfeitando-a com papel higiênico e pixações também.
Também haviam os drogados, sempre usando a trás da casa como esconderijo para suas drogas, sabendo que nenhuma das pessoas ali vivendo se importava, ou sequer os denunciava. Eles também não tinham um telefone, de que adiantaria?
Bem, de qualquer forma, neste ano específico, Emilly foi uma boa criança, ao menos aos olhos de sua gentil mãe.  Sem contar que há tempos a menina exigia um presente. A mãe, não tão hesitante em cumprir pelo menos esse desejo, procurou por alguma coisa que pudesse agradar sua pequenina filha.
Ela encontrou, em meio a destroços da casa queimada de um vizinho que recentemente falecera, uma caixinha de música. Era, realmente, uma bonita caixinha, quase sem nada manchando-a. Somente alguma poeira. Limpou a tal poeira restante, e procurou pela chave da mesma.
Por coincidência ou não, ela estava bem ao lado da prateada e delicada caixinha, esperando para ser pega, o que logo aconteceu.  Ela esperou que a noite de Natal chegasse, esperou com muita paciência. Seu marido, gastava tudo que tinha em bebidas, e Emilly continuava a pedir e a pedir, sem se importar com os ouvidos de seus pais.
Até que, finalmente, a noite chegara. Todas as famílias da vizinhança estavam reunidas para esta bela noite, onde presentes seriam distribuídos, sorrisos seriam vistos nos rostos das crianças, músicas natalinas seriam cantadas, e as igrejas comemorariam o nascimento daquele que chamavam de Jesus.
De qualquer forma, na modesta casa dos Alistair, a situação era a mesma. A mãe, de certo modo, conseguiu acalmar seu marido e sua filha para que, pela primeira vez, tivessem um Natal decente, alegre. Era tudo que a moça mais queria, tal como o primeiro sorriso de sua filha, desde que ficaram pobres daquela forma.
-Mamãe, mamãe ! – Exclamou a menina, ansiosa. – Onde estão meus presentes?
-Sim, querida, já vou pegá-lo. – Respondeu a moça mais velha.
A moça saiu andando em direção ao pequeniníssimo pinheiro que possuíam, avistando a caixinha que pegaria. Estranhamente, a chave estava bem afastada, e a caixinha, aberta. Não se lembrava de tê-la aberto. Devia ter sido seu curioso marido. Bom, como não estava tocando nem nada, fechou-a de volta e pegou a chave da mesma, pondo-a atrás de si para ser algo como uma surpresa.
-Aqui, filha. Espero que gostes.
-Me dá! – Exigiu a garota.
A mãe, com um sorriso gentil em seu rosto, pôs a caixinha nas mãos da menina, tal como a chave da mesma.
-O que é isto, mamãe? – Perguntou a menina, curiosa.
-Abra, filha.
A menina franziu as sobrancelhas e obedeceu à mãe, pegando a caixa em uma das mãos e a chave na outra. Logo, pôs o objeto menor dentro da fechadura da caixa e girou algumas vezes. Automaticamente, a caixa se abriu. Pop goes the weasel começou a tocar, num ritmo calmo, mas não lento, tal como uma pequenina e monocromática bailarina.
Emilly, apesar de ter achado a caixinha e a bonequinha dentro dela bonitinhas, não queria isso de presente. Queria, é claro, um brinquedo. Não algo que tocasse uma música de circo! E a bailarina sequer era colorida. Era preta e branca, tão sem graça!
-Eu não quero isso! – Disse a menina, jogando a caixa no chão. – Eu quero uma boneca que fala! – A mimada menina gritou mais com a mãe e dirigiu-se ao seu suposto quarto, tão pequeno quanto o cômodo que ali estavam.
A mãe, vendo a caixa no chão e relembrando dos gritos mimados da filha, entristeceu-se, ajoelhando-se e pegando a caixinha, ainda inteira, nas mãos. Incrivelmente, a caixinha não fechou e nem algo do tipo até que a música terminasse. A bailarina continuou girando normalmente, tal como a música ficou tocando da mesma forma, mesmo que tenham caído com força no chão.
O homem, irritado com o grito da filha e da incompetência da esposa, levantou-se e andou em direção à ela, com as sobrancelhas franzidas e os braços cruzados.
-Mulher inútil! – Gritou, chutando a face da mulher e espancando-a um pouco mais, como fazia todas as noites. – Não serve nem pra um Natal decente.
Depois de terminado o ato, o homem se dirigiu à cama que ali tinha, deitando-se e fechando seus olhos azul-marinhos para dormir, o que conseguiu em não muito tempo.
Sim, ele, mesmo depois de fazer tal ato com uma mulher que só queria a alegria da família, conseguia dormir tranqüilo, como se tudo não passasse de uma besteira. A mulher estava deitada em posição fetal, cheia de feridas e marcas roxas por todo o seu corpo. Ela tremia e chorava, tal como sentia certo sangue escorrer de uma de suas narinas.
Mais tarde, já que a moça não conseguia mais se levantar, mais ou menos às 00:00, em ponto, ela acordou. Se deparou com a caixinha assim que abriu seus olhos. Ela estava aberta, e tocando mais uma vez. Ué? Será que alguém a tinha acionado?
Com suas forças restantes, olhou de um lado e para o outro; ninguém. Emilly e seu marido continuavam em seus sonhos. A mulher, então, sentou-se com certa dificuldade, e ficou olhando para a bailarina que tão gentilmente girava, como se quisesse consolá-la.
A mulher ficou escutando a música até que esta terminasse, esperando que a caixinha fechasse. Mas não. A música, de fato, terminou e a bailarina parou de dançar. Mas a caixa não se fechou.
Ela estranhou e tentou fechá-la, abaixando sua tampa. Ela abriu mais uma vez. A mulher parou de tentar e ficou observando, com seus olhos curiosos.
Logo, a música começou a tocar mais uma vez, mas dessa vez, ela tinha certa letra. Aliás, fala. Era a bailarina.
-Não fique triste, moça. – Disse a bailarina.
-V-Você fala? – Disse a mulher.
-Sim, eu falo. E também vou livrar você de tanto tormento.
-Como assim?
-Só volte a dormir. – Respondeu a bonequinha.
-Posso ao menos saber seu nome, pequenina?
-Jackie. – Respondeu a boneca.
-Obrigada, Jackie. Boa noite. – A mulher estava, de fato, ainda muito cansada, então não hesitou em cumprir o que a boneca pediu.
Algumas horas depois, sentiu-se com um bom calor. Tipo, grande mesmo. E também sentiu algo iluminando seus olhos. Ao abri-los, viu que sua casa estava em chamas! Rapidamente se levantou, arfante, com cuidado para que seus pés descalços não tocassem nas ardentes chamas ao seu redor.
Estranhamente, essas mesmas chamas não a tocavam, ou sequer chegavam perto da mulher. Ela olhou ao redor, e em meio ao incêndio, pôde ver seu marido, começando a pegar fogo.
-AaAargh! – Ele gritava, sentindo aquela dor agonizante em toda a área de suas costas.
Quanto mais ele rolava pelo chão, mais parecia que as chamas aumentavam, e de fato, era isto que acontecia. A mulher correu até ele, com a esperança de poder apagar certa quantidade de fogo, mas não adiantou.
Assim que chegou perto do homem queimante, o fogo se espalhou mais, ocupando todo o corpo do mesmo, aumentando o volume de seus gritos desesperados, que logo cessaram. Mesmo depois que o homem morrera, as chamas continuaram, como se quisessem puni-lo por algo.
Mas logo a mulher se distraiu com mais gritos, mais finos, mais altos, vindos do quarto de sua filha Emilly. Ela tratou de correr até lá, desviando-se das chamas, esquecendo-se da existência do cadáver que ali havia, entrando sem demora no quarto da filha.
-Emilly!? – Chamou por ela, sem encontrá-la de primeira.
Ouviu, como resposta, um choro vindo de dentro do guarda-roupas velho de madeira que a filha possuía. Tentou abrir a porta do mesmo, mas estava trancada. Tentou mais uma vez, com mais força: sem resultado.
Os gritos aumentaram quando as chamas começaram a tocar no objeto de madeira, e se alastraram pelo mesmo, fazendo com que a mulher se afastasse do mesmo por alguns longos segundos, mas esta foi procurar alguma coisa para abrir as portas.
Quando achou um pedaço solto de madeira do piso, tratou de tentar usá-lo como um pé-de-cabra, fazendo força para que as portas se abrissem. Quando finalmente conseguiu, já não mais ouvia os gritos de sua filha. Ela estava preta de queimada. A pele, as roupas, os olhos, e todas as outras coisas por dentro do guarda-roupas estavam queimados daquela forma.
A mulher pôs as duas mãos na cabeça, desesperada, tentando tirar a criança dali, mas quando conseguiu, ela quebrou ao meio. Uma parte de seu corpo, as pernas especificamente, caíram no chão e boa parte delas viraram cinzas.
Depois, ela virou o restante do corpo da filha, tentando olhar para seu rosto, mas este também, estava irreconhecível, preto, sem expressão, também sem demorar para virar cinzas. As lágrimas rapidamente começaram a fugir dos olhos desesperados da mulher, que gritou tão desesperada quanto.
Logo, assim que confirmaram que o marido e a filha estavam realmente mortos, as chamas começaram a diminuir. Não apagar, só diminuir mesmo. Ela voltou para a sala a passos lentos, sem esperança, e observou a casa destruída, sem móveis, sem família, sem pinheiro de Natal...
E assim, as chamas apagaram.
A mulher ao longe pôde ouvir, a mesma música da presente que tentara dar para Emilly. Pop goes the weasel. Ela lentamente virou o rosto a medida que a música tocava. A caixinha estava lá. Intacta, somente com algumas manchas vermelhas, com a pequenina bailarina girando sem nada lhe afetar.
A mulher ficou com os olhos bem abertos, observando-a até dar o último giro.  A bailarina parou de frente para mulher e sorriu.

-De nada.


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