“Eu vejo o deus que criei morrer”.
Mandus.
Eu fecho o vídeo. Procuro por sua trilha sonora em outros
lugares. Assim que ouço o som dos violinos,das teclas do piano, e a bela voz da
Soprano que cantava, uma parte de mim morria. Uma máquina, feita para mudar o
mundo, feita para impedir que algo terrível acontecesse; impedir que mais
sangue se derramasse e que mais vidas inocentes fossem perdidas.
Os órfãos. Os mendigos. As prostitutas. Aqueles que constroem
essa sociedade, por mais que não saibamos como. Somos todos porcos...Todos
hipócritas. Nenhum de nós realmente sabe qual é o verdadeiro sofrimento. Por
piores que sejam as dores sentidas, nenhuma se compara com a real. Nenhuma se
compara com o real sofrimento.
Uma visão que antes fora vista. Uma visão que inspirou a
criação deste deus morto. A visão do tormento e da morte. A visão que não
mudaria nada. A máquina foi feita. Foi feita para oprimir o mundo com sangue
antes. Antes que o novo século destruísse as vidas dos inocentes.
O homem não pôde ver o que estava criando, até que seu próprio
sangue fosse sacrificado. Suas próprias crianças. Sua própria razão de viver.
Ele nada lembrava. Ele de nada se arrependia. Até que a Máquina os levasse para
longe. Até que a Máquina, de um jeito, abrisse seus olhos.
A máquina foi feita.
A máquina foi feita para que as criaturas se alimentassem de
sua própria carne. Para que os porcos saboreassem o seu próprio sabor. Para que
sentissem o gosto do mesmo sangue que derramariam. Para que sentissem o sofrimento
daqueles que sofrem. Para sentirem-se
arrancando os próprios corações.
O homem agora vê a imundice que havia criado. Vê a histórica
e terrível máquina que saiu de sua própria razão. Mas ele continua sem
acreditar. Tantos anos criando a máquina perfeita. O deus morto. Vê os corpos
boiando nos lagos de sangue. Vê corações e outros órgãos arrancados jogados
pelo caminho.
Vê alavancas,vê luzes,vê botões. Vê velas, vê válvulas, vê
portas trancadas, vê janelas abertas. Vê suas malditas criações andando pela
cidade, destruindo a tudo que encontram. Vê o coração de seu deus morto,
segurado por múltiplas lâminas que não perfuram.
No fim, no definitivo fim, ele sobe pelas quase inacabáveis
escadas, ouvindo as últimas súplicas de sua própria máquina para que não a
destrua. A voz de um deus morto, a voz de alguém que não existe. Ele chega ao fim de sua jornada. Vê o seu
trono de sangue à sua frente. Anda como um cadáver até ele. Senta-se. Aperta o
último botão.
E sente a dor de ter seu próprio coração arrancado. Ele
agora ouve apenas o silêncio. O silêncio que não era acostumado a presenciar, e
vê as luzes, todas elas, a se apagar.
Ele vê o novo século nascer.
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