De manhã, praticamente apenas Susan e Thomas acordaram. A
luz do sol não os incomodava, mas certamente os fazia acordar automaticamente.
Malditas partes humanas...Gostariam de ficar dormindo até a noite. Mas fazer o
quê? Depois que acordavam, era praticamente impossível voltar a dormir.
Suspiraram com essa frustração. Os outros conseguiam dormir
tão facilmente a luz do dia. Do calmo dia russo. Levantaram-se e colocaram as
devidas roupas. Susan saiu de seu quarto, mas Thomas não. Afinal, estava
trancada. Pensou em chamar sua mãe assim que sentiu seu cheiro e a sentiu se mover.
Aliás, a chamou. Aproveitou que ela passava por perto de sua porta para bater
na mesma algumas vezes, chamando sua atenção.
-Huh? Thomas? – Ela disse, com aquela voz sonolenta que ela
tinha.
-Pode abrir, mãe? Por favor? – Ele respondeu, também com a
voz sonolenta.
-Ah, sim, sim. Claro... – Ela pôs as chaves na fechadura,
bocejando, libertando o filho daquela escuridão. Como eles agüentavam aquele
escuro todo?
-Bom dia.
-Bom dia.
Ambos foram simultâneos ao se cumprimentarem educadamente,
dando uma risada leve por isso. Saíram andando juntos pelo corredor, em direção
a escada. Notaram algo diferente quando chegaram por lá. Criados? Ué? Ontem a
noite não tinha ninguém... Bem, os mesmos não demoraram a percebê-los.
-Ah, os dois devem ser a senhorita Riverland e seu filho
Thomas, correto? – Disse o mordomo, de uma forma educada, com aquele sotaque
russo que Susan achava tão fofo.
-Ah, sim. Nós somos.
-Fomos informados de sua visita pelos mestres Wladimir. Por
favor, peço gentilmente que sigam-me para tomarem o café da manhã.
-Comida? – Susan estava tão faminta que diria qualquer
coisa, grossa ou não. – Leve-me até lá!
-Mãe. – Thomas sentiu-se um tanto envergonhado por ela.
-Ah, desculpe. Por favor, senhor, leve-nos até lá.
O mordomo balançou a cabeça positivamente, andando
calmamente para a grande mesa que tinha numa daquelas muitas salas dos
Wladimir. Susan, sinceramente, estava bem impressionada com o quão grande
aquele lugar era. Tantos detalhes em vermelho, tanto ouro, tantos quadros e
enfeites. Opa.
Viu um quadro que chamou-lhe a atenção. Era uma pintura? De
Khristina e si mesma? Ela olhou para o mordomo com uma expressão meio confusa.
-Sim, senhorita Riverland. São a senhorita e a mestra
Khristina. A mestra Khristina pinta quando sente vontade. Seus quadros não são
belos? – O mordomo parecia realmente gostar das pinturas de Khristina.
-São sim. Muito belos, por sinal. – Susan admirava com certo
carinho o quadro que a amiga havia pintado. Tão bem detalhado e tão bem
pintado...
Era de fato, belo.
Bom, chegando à sala de jantar, viu a mesa cheia de coisas
que pareciam extremamente deliciosas. Chegou até a salivar com um pouco mais de
intensidade, mas é claro que disfarçou. Não queria que o filho passasse
vergonha mais uma vez. E falando nele, viu que observava algo perto dali.
Curiosa, seguiu seu olhar, descobrindo um grande, bonito,negro e enfeitado com
rosas, piano de cauda.
Era o sonho do filho dela:Um piano de cauda daqueles. Com as
rosas e tudo mais. Já havia visto Joseph desenhando um para ele. Ela sorriu
para ele e ele a retribuiu, com uma cara de criança animada. É claro que ele
estava tentado a sentar ali e começar a tocar, mas não sabia se isso acordaria
os donos da casa. Mesmo que não ligasse tanto, não queria receber reclamações
dos pais e deles próprios. Muito menos daquele, ugh, Vincent.
Nem sequer queria pensar nele. Só queria sair dali logo. Era
chato e irritante. Mas sempre mudava de ideia ao ver os sorrisos presentes nas
faces de seus pais. Se importava tanto com eles...Tanto a ponto de sacrificar-se
daquele jeito e agüentar aquele loiro idiota. Por que o desejava tanto? Para
experiências ridículas?
O masoquista era Gallahad! Mas é claro que não o deixaria
tocá-lo mais uma vez. Se ele encostasse um dedo no SEU Gallahad, o cara
morreria. Não importava como, mas morreria. A mesma coisa para aquele lobinho
que ficava sempre em seus pés, murmurando coisas que não conseguia entender
direito. Ninguém, NINGUÉM, tocava em seu passivo. A não ser ele,é claro.
De qualquer forma, era meio humano, tal como Susan era uma
total humana. Sentou-se junto com ela e começaram a comer, sem fazer muita
cerimônia. Só com o devido respeito que tinham à casas de outras pessoas.
Afinal, quase nunca eram convidados para ir a casa de alguém. É claro que o
ruivo culpava-se por isso, mas quem manda a maioria dos humanos ser tão
hipócrita e nojenta?
Argh. Não fosse por Susan, acharia que todos não prestavam.
Assim que terminado, agradeceu aos devidos servos que os levaram até lá, também
sem muita cerimônia. Na verdade, eram até bem casuais, coisas que os servos dos
Wladimir não eram acostumados. Eram acostumados com a gentileza louca de
Khristina, a seriedade de Walter e a ironia grossa de Vincent.
Eram gentis, apesar de tudo, esses visitantes. Tudo bem que
só conheceram dois deles, mas até agora já estavam a gostar dos dois, ao menos
um pouco. Sentiam-se um pouco mais livres. Bem, Susan estava bem animada agora.
Principalmente por ter comido algo com um sabor tão bom. Resolveu conversar com
as cozinheiras que ali tinham, só por conversar mesmo. Ela era sociável. Thomas
foi direto para o piano, só se torturando por apenas poder observá-lo. Era de
fato, muito tentador estar ali, na frente do piano de seus sonhos, só podendo
observá-lo. Imaginava se alguém daquela família poderia tocá-lo como ele fazia.
Provavelmente sim, mas não tinha certeza.
-Se o senhor quiser tocá-lo, o senhor tem a permissão,
senhor Thomas. – Disse o mordomo.
-Huh? – Thomas mal prestou atenção, admirado com tal
perfeição à sua frente. – Eu posso?
-Sim. Os mestres Wladimir sabem de sua habilidade para
tocá-lo, e sempre gostaram desse piano, apesar de nenhum deles saberem tocá-lo.
É como se fosse um objeto passado de geração a geração.
-Entendo...Bem, eu posso mesmo tocá-lo?
Os olhos do ruivo pareciam brilhar, encantado com tal
objeto. Era simplesmente lindo e parecia tão bem conservado. Só de olhar já se
derretia internamente, contendo-se para não atacá-lo ali mesmo. Mas bem, todos
pararam para olhá-lo, mesmo que o próprio não tivesse percebido. Sua mãe, com
um sorriso no rosto, olhava para ele com orgulho. É claro que amava quando ele
tocava. Achava-o tão talentoso com isso.
As cozinheiras também o observavam, percebendo o orgulho que
a moça ruiva parecia ter do filho. Elas sorriram junto, esperando que o mordomo
respondesse a pergunta do jovem.
-Sim, jovem senhor. Eles mesmos deram a permissão.
Pessoalmente. – Não mentia. Eles haviam mesmo feito isso.
Um sorriso branco,brilhante e feliz estampou-se no rosto do
ruivo, que praticamente saltou para o banquinho, mantendo a postura, abrindo a
tampa do piano. Era pesada. Ao ver as teclas, não se conteve. Atacou-as sem dó,
produzindo uma música bela aos ouvidos dos que ali estavam presentes.
Tranquila,calma, sem erro algum. Parecia uma música inventada na hora, mas
parecia tão específica para ser... Apesar de que sim, ele a compôs exatamente
naquele momento.
Estava bem inspirado.
Não demorou para o doce som ser ouvido. Gallahad foi o
primeiro a acordar.
-Huh..? Thomie? – Percebeu que ele não estava ali.
Vestiu-se devidamente e seguiu o som que ouvia, caminhando a
passos nem tão rápidos para a sala. Viu o ruivo, com uma cara tão feliz,
tocando o instrumento que mais gostava de ouvir e os outros seres ali, só
ouvindo-o e observando-o. Olhou a expressão de Susan por alguns momentos. Ela
estava com os olhos fechados, um sorriso no rosto e balançando de leve. Tal
como as outras duas mulheres dos seus dois lados.
O mordomo, também com um sorriso, observava os dedos de
Thomas a moverem-se pela extensão preta e branca, imitando-o com os seus
próprios. É claro que disfarçadamente. Bem, é claro que eles o perceberam, mas
não pareceram querer parar de ouvi-lo só para olhar para o lado. Susan e Thomas
nem precisavam, com aqueles olfatos invejáveis. Acabou por contagiar-se e
sorriu também, indo para uma cadeira junto do amado. Sentou-se ali e fechou os
olhos, observando cenas em sua mente. Eram cenas meio poéticas pro seu gosto,
por que era acostumado a pensar, mas ninguém disse que não gostava das mesmas.
Toda vez que ele tocava ficava assim, devaneando. Coisas
felizes ou tristes, poéticas ou dramáticas. Ele era sempre tão perfeito usando
os dedos naquele instrumento que ficava com certa invejinha. Era perfeito.
Os Wladimir também acordaram ao ouvir os barulhos, mas estes
não os incomodavam. Pelo contrário. No escuro quarto onde Khristina e Walter
estavam, dava para ouvi-lo perfeitamente. Khristina apoiou a cabeça no ombro do
marido e este entrelaçou um de seus fortes braços ao redor do pescoço dela.
Ambos devaneando com o som produzido pelo que chamariam de sobrinho, mesmo sem
serem lá parentes.
Vincent acordara também, junto com Aiden. Bem é claro que
sentiu-se um pouco incomodado por acordar de dia, mas o quarto estava escuro.
Não ligou tanto. Apenas imaginava quem estaria fazendo som tão belo. Bem, com
certeza algum dos Riverlands, pois nenhum de sua família sabia tocar de tal
forma. Era tão bom ouvir. Tão relaxante.
Quis até arriscar-se a se levantar, mesmo com a claridade do
dia. Apenas quis. Não era tolo a ponto de se queimar até a morte por causa
daquele sol maldito. Até que ouviu alguns passos. Eram rápidos e
precisos...Provavelmente do mordomo. Alguns segundos depois, murmurando algo
sobre os passos terem estragado aquele momento de música, ouviu sua porta sendo
batida.
-Senhor Vincent?
-Que é? – Grosso como sempre.
-Seus pais mandaram lhe avisar que estarei fechando as
cortinas de toda a casa, isso significa que os três poderão sair durante este
tempo.
-Ah, sério?
-Sim, também estarei destrancando a porta de seu quarto, se
me permite. – Destrancou a porta, deixando Aiden e Vincent livres.
“Poderemos sair?” – Ele pensou. “Bem, eu realmente quero
saber quem tá tocando aquele piano..” – Lentamente pôs os pés no chão. – Vamos,
Aiden.
-S-Sim, Vincent. – Ele gaguejou, fazendo o mesmo e o
seguindo após o ato.
Os quatro, Vincent,Khristina,Aiden e Walter, desceram as
escadas, todos seguindo os doces e belos sons que o piano que Thomas tocava
produzia.Os dois adultos, é claro, esperavam que fosse o adolescente, mas não
Vincent. Por que tinha de ser ele? Alguém tão, ugh, nem sabia a palavra certa,
tocar algo tão belo para seus ouvidos? Como podia? Onde estava a lógica???
Joseph havia descido um pouco antes deles e encostado numa
parede próxima com o caderno de desenhos na mão. Sempre que o filho tocava
sentia-se inspirado. Logo, aquilo tornou-se uma sala lotada de pessoas, só
observando o ruivo a tocar. Ele
percebera o cheiro dele, de Vincent, mas ignorou. Não pararia por nada de tocar
aquele piano, mas Susan, claro, incomodou-se um pouco mais. Com um ar meio
protetor, ela se aproximou mais do filho, mantendo certa distância ao mesmo
tempo, só para vigiar o que aquele loirinho faria.
Assim que a música composta acabara, Thomas suspirou. Ele se
virou e olhou ao redor. Não esperava tanta gente, apesar de saber que tinham
tantos cheiros diferentes. Quase imediatamente corou, desviando o olhar e com
um sorriso tímido. Todos eles sorriam para ele, exceto Vincent claro, mas ele
era o único. Até mesmo Aiden sorria, achando que aquilo tinha sido belíssimo.
-Você toca muitíssimo bem, Thomas. – Disse Walter, com certo
orgulho no rosto também. Estava ao mesmo tempo, um tanto emocionado,mas nada
demonstrava.
Khristina aplaudia com as mãos finalmente livres, mas era
segurada por Walter para que não avançasse de tão ansiosa que estava.
-Você tem sooorte, Susan. Seu filho tem um talento
belííssimo! – Ela afirmou.
-O-Obrigada, Khristina.
-Por que os dois não fazem um dueto? – Essas foram as
palavras de Joseph, que lembrara que a esposa trouxe consigo o tão amado
violino.
-D-Dueto? – Susan corou. Não esperava por isso.
-Faz tempo que não ouço você tocar, também. Só quando não
estou por perto você toca.
-Ah, é-é? – Ela gaguejou, meio sem jeito. Olhou para o
filho, que balançava a cabeça positivamente num modo de tentar convencê-la. Ela
suspirou. – Tááá. – Inflou as bochechas.
Os outros sorriram para ela e brincaram dizendo “Ê” como
celebração. Esperaram até que ela voltasse, com o negro e bonito violino em
suas mãos finas e enfaixadas, como sempre fazia antes de tocar. Tratou de pegar
o arco e o instrumento, esperando que o filho começasse. De fato, ele o fez.
Ela começou logo em seguida.
Os dois faziam um som profundamente solene, tranqüilizante,
deixando todos ali boquiabertos. Susan, apesar de não tocar há algum tempo,
continuava extremamente afinada. Sabe-se lá como. Talvez, como Joseph dissera,
estivesse tocando escondida. Meio que
com o tempo ela se sentiu a vontade, deixando que os sons do violinos tocassem
seus tímpanos, deixando-o penetrar ali.
Era estranho ver como ela não tinha perdido a habilidade e
mais estranho ainda ver os Wladimir acordados de dia. Mas as cortinas estavam
fechadas. Ficariam acordados até que o dueto de mãe e filho acabasse. Era muito
bonito, Thomas e Susan pareciam extremamente sincronizados e sua harmonia era
perfeita.
Até Vincent, mesmo com as sobrancelhas franzidas, chegou a
fechar seus olhos por alguns instantes, deixando sua curiosidade para os
experimentos em Thomas diminuírem, só um pouquinho, pois sabia que todos os
seus acompanhantes o vigiavam. Tinha de pegá-lo quando estivesse dormindo, sem
que seus próprios pais percebessem tal ato.
Todos se encantaram com a melodia, mas infelizmente a mesma
acabou. Chegaram até a aplaudi-los, deixando os dois ruivos mais vermelhos
ainda. Gallahad meio que o agarrou, olhando para Vincent com uma cara traduzida
de: “Saia, vadia. Esse daqui é meu.” Um sorriso sarcástico estampado em seu
rosto provava isso.
-Vocês são muito talentosos. – Disse Walter. – Deviam usar
essa habilidade em concertos.
-N- Nós não somos tão bons assim... – Disse Susan.
-Existem melhores...- Completou Thomas.
-Pfft, que é isso? – Disse Khristina, sorridente. – São
muito bons siiiim.
Os dois coraram mais e desviaram o olhar, com tímidos
sorrisos em seus rostos queimantes.
-O-Obrigada.
-Obrigado.
Disseram os dois, simultaneamente. Thomas levantou-se da
cadeira que estava e o mestiço ainda estava agarrado à seu pescoço, com uma
carinha sarcástica,manhosa e orgulhosa, olhando fixamente em seus olhos
vermelhos vibrantes.
-Você me dá orgulho assim, Thomie – Ele disse, fazendo
biquinho.
-Sério? – Ele respondeu, rindo levemente.
As pessoas ali presentes, ora aproveitando que estavam
acordados começaram a conversar, enquanto os adolescentes andavam de volta para
seus quartos, um atrás do outro. A questão era que eles praticamente se
detestavam.
Vincent podia até aproveitar que estava atrás dele e o
capturar, mas sabia que Joseph escutaria tal ato, tal como Susan cheiraria.
Droga. Teria de esperar todos dormirem. Todos mesmo. O problema é que seus pais
dormiam ao dia e os pais dele à noite. Estava, certamente, em desvantagem.
Caminhavam pelo corredor, também vermelho, at[e chegarem em
seus devidos quartos, que por coincidência ou não, eram um ao lado do outro.
Imaginava se ele sabia comunicar-se pelo código Morse. Bom, poderia até ser um
extra da experiência. Ainda faria algumas ameaças, só para testá-lo.
Chegou próximo da parede, já cerrando um dos punhos,
começando à “Conversar” com ele logo em seguida. Desistiu das ameaças. Talvez,
se ganhasse sua confiança, seria mais fácil de conseguir o que queria.
-Thomas?* - Falava em código Morse.
Para a sua surpresa, ele sabia falar de tal maneira.
-O que você quer?*-Respondeu-lhe, sem lá tanta educação.
-Me dói admitir, mas você toca muito bem.*
-Você acha? Hm.. Obrigado, eu acho.*
Aiden e Gallahad não entenderam muito. Haviam se esquecido
da existência de tal código, sem nem imaginar o motivo de estarem batendo na
parede com certo ritmo.
-Que está fazendo, Thomas? – Disse o mestiço, confuso.
-Falando com o Wladimir.
-Batendo na parede? – O mestiço perguntou, irônico.
-Existe algo chamado código Morse. – Ele respondeu, também
irônico.
-Ah, agora faz muito mais sentido.
O ruivo riu, achando tal frase engraçada por algum motivo.
-Que está fazendo agora, Riverland?*
-Nada.*
-Ah,bom. Já que o assunto morreu,uh, Bom dia.* - Era o mesmo
que “Boa Noite” para Vincent.
-Bom dia.*
Logo, assim que ambos se separaram,voltando à seus devidos
passivos, deitando-se junto deles. Vincent tornou a dormir enquanto Thomas
tentava fazer o mesmo, mas nem mesmo o tédio que sentia o ajudava. Suspirou
pela frustração. O mestiço estava do seu lado, é claro que percebeu isso.
Aproximou-se dele de uma maneira lenta, sem fazer barulho, e assim que estava
próximo o bastante, agarrou-o, sorrindo para ele.
-Que tédio hein, Thomie? – Ele riu de dele.
- Nyeh.
-Aqui, deixa eu te ajudar. – Afastou os cabelos dele de seu
pescoço.
-Não. Seria minha vez agora, senhor Gallahad. – Tampou a
boca dele, só por brincadeira mesmo.
-Haha, eu não ligo. – Mordeu a mão dele, deixando que o
sangue escorresse em sua boca e garganta.
-Maldito. – Deixou que ele sugasse seu sangue, de qualquer
forma.
Mesmo que ainda o estivesse mordendo, Gallahad sorriu,
apertando mais a mordia, só para der, sem se importar que o líquido vermelho
dele escorresse pelos seus braços. Adorava, aliás, quando isso acontecia. Era
bom ter o cheiro de sangue mestiço dele em seu corpo frágil e masoquista,
sedento por sangue. O sangue DELE somente.
Assim que o mestiço soltou-o, Thomas o derrubou, prensando-o
no colhão para ter um tipo de vingança. Ele ignorou as contorções do rapaz e
mordeu o seu pescoço em pena, imediatamente começando a sugar seu sangue.
Gostava muito de ter o sangue dele escorrendo por sua pele;por sua garganta,
ouvindo seus suspiros e gemidos abafados.
Sorriu ao terminar. Os olhos vermelhos a se destacar em meio
a escuridão daquele quarto e o cheiro de sangue a ressoar pelas paredes do
mesmo. Podia possuí-lo ali mesmo, mas ia ter que segurar. Por uma maldita semana!
Argh!
-Droga..! – Ele disse, batendo com certa força no colchão.
-O que foi?
-Você sabe.
-Ah, então você queria mesmo,né, Thomie? –Ele riu, fazendo
uma cara que sabia que o seduzia, só para provocá-lo.
-Não me olhe com essa cara.
-Senão o quê? – Gallahad e sua língua incontrolável.
-Pare. Estamos na casa de outra pessoa.
-Mas ninguém disse que não podemos sair... –Ele inflou as
bochechas, puxando Thomas mais para perto e lambendo o sangue que ainda
escorria no seu queixo.
O ruivo desviou o rosto com a ação, meio corado. Se bem
que...Ele estava certo. Não tinha nada que os proibisse de sair. Mas para onde
iriam? Era uma boa pergunta. Estava certo, é claro, de fazer a mesma para ele.
-Mas para onde iríamos, senhor manhoso?
-Boa pergunta.- Gallahad desviou o olhar.
Os dois frustraram-se e suspiraram, mas não saíram daquela
mesma posição.
-Talvez...Só um pequeno foreplay?
-Talvez. Se você conseguir me deixar com mais vontade do que
já estou. – Ele sorriu, deitando-se ao seu lado finalmente, incapaz de acreditar
que ele sequer tentaria.
Gallahad bufou e murmurou reclamando, nyeh para você Thomie,
por que era tão teimoso? Bufou de novo, resolvendo consigo mesmo se tentava ou
não seduzi-lo. A preguiça o consumia. Que trágico. Acabou por dormir mesmo, tal
como o ruivo ao percebê-lo inconsciente ali.
Enquanto eles dormiam, a conversa continuava lá por baixo
entre os adultos. Tudo bem que alguns deles já tinham mais de uma centena de
anos, mas que podiam fazer? Eram amigos a tanto tempo, é também era a primeira
visita que Susan fazia a amiga. Geralmente só conversava com ela por telefone
ou pela webcam que possuía.
Não demorou para que um certo tantinho de luz aparecesse,
distraindo os três vampiros completos ali presentes. Susan não percebeu de
primeira, fazendo uma cara confusa e pendendo a cabeça um pouco para o lado.
-O que houve?
-O sol.
-Huh?
-Susan uma das cortinas abriu.
-Aaah. – Ela olhou para trás, vendo a cortina principal
aberta e logo depois olhando para Khristina, que se escondia atrás do marido
por ser a mais pálida, e também a mais velha e mais frágil, dali.
Ela ficou um tanto preocupada, mas lembrou-se de poder andar
sobre a luz sem problemas. Sempre esquecia-se disso por morar com dois vampiros
em casa, só andando com eles durante a noite por assim dizer. Ela riu consigo
mesma e foi até o lado de fora da casa, subindo até o nível da cortina aberta e
fechando a mesma, não querendo que o mordomo, tão gentil, tivesse trabalho. Num
instante desceu, mas acabou tropeçando e terminando por cair dali.
Não foi lá uma queda bonita. Ela deu um jeito de torcer o pé
direito. Bem feio.
-Eu e minha desastrosa personalidade. AH! – É claro que
doía, e muito! Por que tinha que ser humana justamente nessas horas?
Os servos dali logo vieram ajudá-la pondo-a encima de uma
poltrona.
-Não se preocupe comigo, já sofri coisa pior. Acho que
consigo ajeitar sozinha. – Ela sorriu gentilmente para eles.
Nem diga isso, moçaa. – Respondeu Khristina por eles,
arriscando-se a andar até ela. – Cuidarei eu mesma disso. – Ela sabia uma ou
duas coisas de anatomia, então sabia como ajudá-la naquela situação específica.
-Realmente não precisa, Khristina.
-Eu insisto!!
Eles não se lembraram muito na hora que Khristina era frágil
e louca, e que seus braços estavam soltos, ainda meio estranhos por causa do
que acabara de acontecer, mas não demorou muito para uma das cozinheiras se
tocar da situação.
-Uh, senhor Walter!
-Sim?
-A senhorita Khristina. Os braços dela.
-Oh céus. – Ele se tocou logo e correu até ela. –Khristina!
-O que foi Walter? – Ela fez uma cara de nervosa, sem
entender.
-Pare, agora. Nós ajudaremos Susan, mas pare.
-Por quê? Posso saber? – Ela se levantou, meio agressiva.
-Esqueceu-se disso? – Ele a puxou um pouco para perto de si,
mostrando a ela os sinais de quebra em sua pele. Era como vidro, tinham algumas
rachaduras. Um simples movimento poderia quebrá-los.
-Desculpa... – Ela disse, olhando para o lado.
Susan não entendia. Não tinha uma audição tão boa quanto a
de Joseph, nem visão tão boa quanto a de Gallahad. O que havia no braço dela?
Preocupava-se um pouco, ignorando a dor que sentia no pé direito.
-Khristina? – Ele perguntou. – Você está bem, querida?
-Ah, sim, sim, Susan. Eu estou muuuito bem. – Ela disse com
o típico sorriso em seu rosto. – É só o Walter preocupando-se a toa com iisto
aqui. – Ela lhe mostrou as rachaduras que tinha.
-Khristina...! O que houve com seus braços??
-Estão rachados por causa de Vincent. – Disse Walter,
respondendo por ela.
-Huh? Do seu filho?
-Sim. Vamos dizer que ele nasceu numa situação crítica.
Susan estava mais preocupada com a amiga do que consigo
mesma. Na verdade nem ligava tanto para si mesma, tanto que até se levantou e
andou até ela, melhor, mancou até ela.
-Desculpa, Khristina. Eu não sabia disso.
-Nah, queriida. Não precisa ficar assiiiim. Não foi culpa de
ninguééém. –Ela se aproximou e encostou-se na ruiva, que a abraçou com certa
fraqueza, com medo de quebrar os braços dela.
-É por isso que seus braços vivem presos no vestido?
-Sim.
-Entendo...
Um momento de silêncio percorreu por todos os cantos neste
momento, sem que alguém ousasse quebrá-lo. Estava um tanto tenso também, até
que Susan pensou um pouco e resolveu ousar tal ato.
-Uh, vocês deveriam voltar a dormir. Ainda está de dia...E
tenho quase certeza que dormiram pouco.
-Mas Suuuusan.
-Nada de “Mas”, Khristina. Você sabe que eu estou certa,
dessa vez.
A mulher loira inflou suas bochechas, como se fosse uma
criança.
-Táá. Vamos, Walter. – Ela puxou-o com a ponta dos pés, já
que andava descalça.
Walter a seguiu lentamente pelas escadas, entrando em seu
devido aposento junto dela. Joseph ainda estava calado, concentrado no desenho
que havia começado poucos minutos atrás.
-Joseph?
-Hm?
-Como está o desenho?
-Por que você mesma não vê? – Ele disse, sorrindo ao olhar
para ela.
Ela se aproximou, obedecendo ao pedido indireto dele para
que se aproximasse, acocorando-se a sua altura e vendo o que ele desenhara: Ela
própria e seu filho, tocando juntos novamente.
É claro que a hiperativa ruiva corou no mesmo instante que reconheceu
tais rostos.
-J-J-Joseph, vo-você não p-precisava ter feito isso..! – Ela
disse, com um sorriso meio torto e a cara queimando, parecia estar usando um
corante vermelho.
-Não precisava? Sério? – Ele disse irônico. – Que pena,
acabei fazendo. Desculpe. – Ele estava brincando é claro. Teria feito de
qualquer jeito. Afinal, estava inspirado!
-N-Não se desculpe. – Ela olhou para o lado, inflando as
bochechas dela.
Ele riu e beijou uma das mesmas de leve, desinflando-as.
-Por que não sai para passear um pouco? Tenho absoluta
certeza de que você nunca viu neve na vida.
-Não vi mesmo não. – Ela retrucou, um tanto mal educada, mas
não muito.
-Então vá. Vá vê-la e divertir-se como eu um dia já a senti.
-Que frase profunda, Joseph.
Ele riu, lembrando-se de sua época de humano. Era bom sentir
alguma coisa que não fosse dor. Mal lembrava dos sensações frias, quentes ou de
qualquer outra temperatura. Afinal, era um corpo morto que estava usando. Um
mero ‘frasco de vidro’ que quebra por qualquer coisinha.
-Vá, Susan. Ficarei pelo quarto, mesmo sem conseguir dormir.
Esse fuso-horário me mata um dia.
Ela franziu um pouco as sobrancelhas para cima,
aproximando-se dele e dando-lhe um beijo na testa, guardando para si a cara de
surpresa e a repentina vermelhidão que surgiu em seu rosto pálido e sério. Ela
sorriu mais uma vez, indo até o quarto pegar algumas roupas mais confortáveis
que a deixassem aquecida pela temperatura fria ali fora.
Logo ela saiu, andando pelos caminhos desconhecidos e
brancos, tão bonitos à seus olhos esverdeados e curiosos. Ela sorria para as
pessoas que por ela passavam, as vezes não tendo o mesmo retribuído, mas
parecia uma criança a andar por um parque de diversões. Realmente se divertia
pelas camadas fofas e alvas da neve, com o pé já melhorzinho.
O máximo que acontecia é dela mancar, nada mais que isso.
Algumas crianças chegaram a pedir para brincar com ela na
neve, fazendo aquelas famosas guerras de bola de neve que ela tanto via na
televisão quando criança. Era bem divertido. Passou o dia lá fora, se cansando
para chegar em casa, tomar um bom banho e cair na cama.
Andou pelos mesmos caminhos que veio, milagrosamente com a
perna do mesmo jeito que saiu, chegando até a grande mansão em poucos minutos.
Ela bateu na porta é claro, não era mal educada. John e Maria a ensinaram bem
quando pequena.
Foi atendida mais uma vez por Walter. Já estava escurinho,
então não tinha mais problemas deles saírem.
-Bem vinda de volta, Susan.
-O-Obrigada, Walter. – Ela disse, arfando. Realmente passou
muito tempo se cansando. Praticamente se jogou no chão quentinho daquela casa.
–Chão queente, que saudade. – Ela fez graça.
Os que estavam presentes ali, que para variar eram todos,
riram de sua palhaçada. Exceto Vincent. Era muito cara dura para essas coisas,
principalmente com humanos. Ele e Aiden estavam afastados do grupo que ali se
formara, andando em direção ao laboratório para ‘cuidar’ de suas cobaias. Na
verdade, iria ficar ali até ter certeza de que estariam dormindo. Estava muito
determinado a pegar Thomas enquanto este dormia e a se trancar ali, impedindo
que os outros entrassem, pela semana que viria. Talvez mais outra. Talvez até
que todos morressem.
Era fascinado por esquizofrênicos, e é claro que de vez em
quando tinha as suas correntes alucinações, mas era facilmente acordado por
Aiden. O vampiro bufafa e se fazia de mimado toda hora, murmurando de que
queria o esquizofrênico a qualquer custo, ver até que ponto ele seria capaz de
agüentar a dor que lhe causaria.
Observava os convidados entretendo-se com seus pais e se
enojava ao ver a mãe de sua próxima cobaia toda suada daquele jeito.Ela não
tomava banho, por acaso? Argh, era irritante ter humanos em sua presença.
-Ah, Khristina?
-Sim, Susaaan?
-Onde fica o banheiro? Eu realmente necessito de um banho. –
Ela fez uma pose dramática só para ouvir a outra rir.
-Lá em cima, duas portas depois do quarto de Vincent. – Ela
respondeu aos risos pela pose da ruiva.
-Valeu!! – Ela fez mais uma pose, pondo os dois polegares
para cima. O famoso “Joinha”.
Ela subiu as escadas e tomou um longo banho, avisando que
logo depois iria para o quarto dormir por estar muito cansada. É claro que
Vincent ouviu isso.
“Ótimo. Uma a menos. Ainda faltam mais quatro.” –Ele pensou,
ainda com a intenção de pegar Thomas nessa noite.
Ele os observava pela fechadura de sua porta. Um a um,
atrapalhando seu desejo, sem ele notar o ciúme que em Aiden crescia.
-Vincent. – Ele disse, com um tom meio possessivo e manhoso
para distraí-lo.
-O quê, Vincent? – Ele não parou para olhá-lo. Praticamente
só mexeu os lábios.
-Desde que você entrou que não sais daí. Você não vai cuidar
das cobaias hoje?
-Aiden, eu não quero saber deles. Eu quero saber do
Riverland.
-Oh... – Ele ficou meio triste com a frase respondida por
ele. Será que havia se esquecido de Aiden? – Desculpe atrapalhá-lo... – Aiden
disse, afastando-se lentamente, esperando que ele percebesse.
-Ahan.
Ao perceber que ele não iria mesmo virar-se para ele, chuto
o vento e foi descontar a raiva em sua própria cela, batendo em tudo que
poderia encostar. Era um lobo. Era normal que ficasse abusado assim.
Vincent apenas ficou ali, observando os adultos se afastarem
um por um, deixando Thomas e Gallahad finalmente sozinhos. Finalmente. A
oportunidade perfeita. Mas não podia fazer isso sozinho, sabia que o outro
mestiço o defenderia.
-Aiden—Ele disse, achando que o mesmo ainda se encontrava
atrás de si. – Aiden?
Ele saiu andando pelos corredores do laboratório, chamando
pelo seu nome, sem fazer ideia do porquê de ele ter sumido. Até que chegou em
sua cela, toda destruída, e ele lá encolhido, fazendo sons de choro.
Imediatamente se preocupou, entrando na cela lentamente.
-Aiden?
Quando este ouviu a voz do loiro, levantou um pouco a cabeça
para olhá-lo, mas logo voltou a posição que estava.
-...Sim?
-Preciso de sua ajuda agora.
-Pra quê? Você não está interessado em mim, mesmo.
-Huh? Ah... – Lembrou-se daquilo que havia dito. – Isso é
por causa do que eu disse antes, Aiden?
Ele se calou, virando um pouco o rosto que estava ali
encostado. Enfim Vincent percebeu que ele estava com ciúmes.
-Você...Você está com ciúmes, Aiden? – Ele perguntou, meio
arrependido do que havia dito.
-Q-Quem está com ciúmes? – Ele franziu as sobrancelhas.
-Aw, que fofo. – Ele se aproximou. – Desculpe pelo que eu
disse, Aiden. –Ele o abraçou, apesar da posição que ele se encontrava. – Você
continua sendo meu preferido. O Riverland é só algo passageiro.
-Hunf.
-Deixe de se bancar difícil. – Ele sorriu, apertando-o um
pouco. – O que posso fazer para tirar esse seu ciuminho?
-Hunf, não sei. – Ele inflou as bochechas e fez biquinho.
-Ah não? Mas eu sei. – Ele o tocou onde sabia que ele
gostava. – Eu sei exatamente como. – Ele deu um sorriso irônico e esqueceu-se
de Riverland por essa noite.
Por essa noite.
Bem, para um resumo, a semana foi um tanto quanto a mesma
coisa. Todos conversando, de vez em quando, passeando, mas praticamente nada
além disso. Vincent sem nenhuma outra oportunidade para capturar o Riverland.
Apesar de tudo não se arrependia do que tinha feito com Aiden. É claro que não o
deixaria de novo com ciúmes, apesar de tê-lo achado a coisa mais fofa do mundo.
É claro que ele não deixaria de ser seu preferido.
No penúltimo/último dia, já que era de madrugada, por um
milagre todos resolveram dormir, só para acordar no mesmo horário em que
Susan,Joseph,Gallahad e Thomas iriam: De manhã, mas é claro que Vincent não.
Pelo contrário. Algumas horas antes, sabendo do fato que aconteceria, pegou a
cópia da chave do seu próprio quarto, tal como a do de Thomas, e quando teve
certeza de que todos estavam a dormir, foi até o quarto dele.
Ele era fofo enquanto dormia, hah, quem diria? Muita ironia.
Pegou-o com cuidado para que ele não acordasse, tendo a
ajuda de Aiden para que o outro lobo não acordasse, e levou-o até a porta de
metal de seu laboratório. Ele pôs a
senha na mesma e o puxou para dentro ainda com cuidado, levando-o direto para a
cela que lhe tinha reservado.
Chegando lá, Aiden sentou-se num canto, enquanto Vincent
prendia o ruivo mestiço numa cadeira. Estando ele completamente preso à ela,
tratou de acordá-lo com uma furada na perna com a própria garra dele. Ele não
acordou por completo. Era meio sonâmbulo. Talvez fosse isso que causasse a
maior parte de sua esquizofrenia.
-Olá, Thomie.
-Huh? Onde? Como? – Ele perguntava para si mesmo, não vendo
nada nitidamente. Na verdade, estava tendo certas alucinações e os sussurros de
seus pesadelos o assombravam. Mas nada dizia, nada fazia. Apenas tremia.
-Como você está?
Ele via um vulto com a cabeça meio amarela passar por sua
frente, pendendo seu corpo para o lado e movendo os lábios, dando para ver
pontos brancos e afiados aparecendo por baixo dos mesmos. Ele abaixava a cabeça
e os olhos semicerrados incertos do que viam. Não estava sabendo de nada.
-RESPONDA-ME! – Vincent lhe deu um tapa, dando um susto no
mesmo.
Bem é claro que o ruivo estava meio esquizofrênico. Com o
tapa levado, os sussurros ficaram mais intensos e ele começou a contorcer-se de
leve na cadeira que estava preso. Em sua cabeça, estava preso algum lugar no
chão, com coisas afiadas perfurando a sua pele pálida e meio rosada. Ele estava
trêmulo, sem ter muita ideia do que estava acontecendo ao seu redor.
-Ah, entendi. Só consegue me ouvir, não me responder, não é
seu inútil? – Disse Vincent, sorrindo de maneira sarcástica.
Aiden o observava apenas.
-Vamos! Fique perigoso! Torne isso divertido!
Os sussurros em seus ouvidos ficavam cada vez mais audíveis
e entendíveis:
“Mate-o,mate-o, mate todos!”
Esta frase era dita a todo instante, deixando a cabeça dele
confusa e meio agressiva.
-Me solte... – Ele disse, tendo consciência que era Vincent
quem o segurava. Mas estava claro que a esquizofrenia o dominava. – ME SOLTE.
Me solte, ME SOLTE!
-Por que você mesmo não tenta se soltar, hein? –Ele pegou
uma lâmina e a arrastava lentamente pela perna direita de Thomas, vendo seu
sangue mestiço escorrer pelas duas.
É claro que a lâmina se movimentava pela perna dele estar
trêmula e incontrolada, mas as amarras que estava usando o impediam de fazer
qualquer coisa além de mandá-lo parar ou soltá-lo.
As mãos se mexiam freneticamente, com as garras procurando
por algo para arranhar, os olhos agora completamente abertos, mas ainda não
nítidos, olhando para todos os cantos com uma fúria contida. O desejo de matar
praticamente escorria de suas orelhas, os dentes rangendo provavam isso.
-Hah, quer me matar?
-Q-Quero. Eu quero. – Ele respondeu, perdendo o controle e
passando a tentar mordê-lo a todo custo, com a intenção de matar.
-Então tenta! Mestiço nojento, tenta! – Ele se afastava de
vez em quando, só para provocá-lo, querendo fazer com que ele se libertasse
dali.
-Eu..Não o provocaria tanto, Vicent.
-Cale-se por agora, Aiden. Eu sei o que estou fazendo.
Não, não sabia. Thomas era muito mais forte do que
aparentava. Bastou perder o controle que as amarras de suas mãos foram soltas e
ele se jogou no chão, arrastando-se até Vincent. Vincent não pareceu tão
assustado. Pelo contrário, parecia até louco.
-VENHA! VENHA ME MATAR, RIVERLAND, VENHA!
Thomas se arrastava com certa velocidade e por certa ironia,
ou não, suas garras pareciam não se desgastar por estarem sendo arrastadas
contra o chão duro e sangrento que ali tinha. Sim, o cheiro de sangue estava
presente ali. Só tornou a situação pior. Mesmo sem ser de Gallahad, sangue o
atraía de qualquer forma. Arrastou-se até Vincent mais uma vez, com mais
velocidade e voracidade também, agarrando-se em sua perna e arranhando-a como
nunca, deixando mililitros de sangue serem escorridos.
Vincent tirou a perna dali, mesmo que tenha resultado em
cortes mais profundos do que ele estava fazendo. Afinal, é claro que ele tentou
segurá-lo. Com força.
Thomas ,agora, sentiu-se incomodado com as amarras que o
seguravam e contorceu-se para alcançá-las e arrancá-las com as garras,finalmente
ficando em pé. Vincent sorria como louco, provocando Thomas mais e mais e
preocupando Aiden mais e mais. Não demorou para que o ruivo se atirasse nele e que
ambos travassem uma luta pelo poder, sem conseguirem achar um vencedor por um
bom tempo.
Com esse tempo passando e com o tanto de sangue escorrendo,
não demorou tanto para que os vampiros percebessem, e principalmente Susan que
tinha um olfato muito melhor do que o deles. Ela foi a primeira a se levantar e
a correr para a grande porta de metal que , por acaso, só que não, estava trancada.
-ARGH, ABRA ESSA PORTA, WLADIMIR! – Gallahad já chegou
gritando, batendo na porta com toda a força que tinha. Não parecia sequer
causar-lhe um arranhão.
Os outros três chegaram não muito depois, fazendo o mesmo
que Susan e Gallahad: Tentando abrir a porta. Khristina nem tanto por causa dos
braços frágeis, mas tentava.
-VINCENT! – Walter parecia furioso. – ABRA ISSO, AGORA!
Enquanto ouviam os berros dos adultos lá fora, os dois
jovens ainda brigavam, com Aiden tentando à todo custo separá-los, pois sabia
que essa briga não acabaria bem. Percebendo que não conseguiria de jeito
nenhum, foi para a porta, tentando se lembrar da combinação exata que o mestre
havia colocado ali, milagrosamente não acertando de primeira.
-Droga! – Ele disse, de vez em quando olhando para trás para
ver o quão grave a situação estava. Até ossos estavam expostos! Tinha de ser
mais rápido.
Após várias e várias tentativas, finalmente conseguiu abrir,
deparando-se com uma pequena multidão furiosa que não demorou nenhum instante
para entrar e correr até os dois que brigavam.
-THOMAS!
-VINCENT!
Os quatro pais disseram simultaneamente, assustando os dois
também simultaneamente.
Como eles tinham mais força, conseguiram separá-los, mesmo
com certa dificuldade, afastando-os um do outro com mais dificuldade ainda.
Thomas ainda estava esquizofrênico, trêmulo, com o desejo de matar, mas se
segurava na presença de sua mãe. Sempre sentia quando ela estava por perto, e
mesmo quando estava naquela situação, ela era como um forte seguro para sua
mente.
Enquanto os pais do outro jovem, o mais ousado, reclamavam e brigavam com ele, mas parecia
não lhes dar ouvidos. Ele ria como louco, sorria como um, agia como um. Aiden
estava assustado com a situação.
-POR QUÊ? POR QUE VOCÊ AJUDOU ELE COM ISSO SABENDO QUE IA
DAR NESSA SITUAÇÃO? – Gallahad gritou para ele, bem agressivo. – RESPONDA!!!
Aiden recuou um pouco.
-Eu não sabia...Que ia ser tão grave.
-AH, NÃO SABIA? POIS AGORA JÁ SABE. – Aproveitou e deu-lhe
um soco no rosto, mas quase ninguém percebeu. Pensou até em desculpar-se,
sabendo que ele ao menos tentou, mas não o fez. Apenas se afastou para junto
dos que veio junto.
Logo a manhã chegou.
Os Riverland partiram daquela casa, tristes, e decepcionados
com o que tinha acontecido.
Tal como os Wladimir, que apesar de amarem tal família,
jamais os convidaria de novo.
Ter filhos loucos não é lá algo fácil de lidar.