sábado, 16 de novembro de 2013

Encontro Inesperado (III - Final)

De manhã, praticamente apenas Susan e Thomas acordaram. A luz do sol não os incomodava, mas certamente os fazia acordar automaticamente. Malditas partes humanas...Gostariam de ficar dormindo até a noite. Mas fazer o quê? Depois que acordavam, era praticamente impossível voltar a dormir.
Suspiraram com essa frustração. Os outros conseguiam dormir tão facilmente a luz do dia. Do calmo dia russo. Levantaram-se e colocaram as devidas roupas. Susan saiu de seu quarto, mas Thomas não. Afinal, estava trancada. Pensou em chamar sua mãe assim que sentiu seu cheiro e a sentiu se mover. Aliás, a chamou. Aproveitou que ela passava por perto de sua porta para bater na mesma algumas vezes, chamando sua atenção.
-Huh? Thomas? – Ela disse, com aquela voz sonolenta que ela tinha.
-Pode abrir, mãe? Por favor? – Ele respondeu, também com a voz sonolenta.
-Ah, sim, sim. Claro... – Ela pôs as chaves na fechadura, bocejando, libertando o filho daquela escuridão. Como eles agüentavam aquele escuro todo?
-Bom dia.
-Bom dia.
Ambos foram simultâneos ao se cumprimentarem educadamente, dando uma risada leve por isso. Saíram andando juntos pelo corredor, em direção a escada. Notaram algo diferente quando chegaram por lá. Criados? Ué? Ontem a noite não tinha ninguém... Bem, os mesmos não demoraram a percebê-los.
-Ah, os dois devem ser a senhorita Riverland e seu filho Thomas, correto? – Disse o mordomo, de uma forma educada, com aquele sotaque russo que Susan achava tão fofo.
-Ah, sim. Nós somos.
-Fomos informados de sua visita pelos mestres Wladimir. Por favor, peço gentilmente que sigam-me para tomarem o café da manhã.
-Comida? – Susan estava tão faminta que diria qualquer coisa, grossa ou não. – Leve-me até lá!
-Mãe. – Thomas sentiu-se um tanto envergonhado por ela.
-Ah, desculpe. Por favor, senhor, leve-nos até lá.
O mordomo balançou a cabeça positivamente, andando calmamente para a grande mesa que tinha numa daquelas muitas salas dos Wladimir. Susan, sinceramente, estava bem impressionada com o quão grande aquele lugar era. Tantos detalhes em vermelho, tanto ouro, tantos quadros e enfeites. Opa.
Viu um quadro que chamou-lhe a atenção. Era uma pintura? De Khristina e si mesma? Ela olhou para o mordomo com uma expressão meio confusa.
-Sim, senhorita Riverland. São a senhorita e a mestra Khristina. A mestra Khristina pinta quando sente vontade. Seus quadros não são belos? – O mordomo parecia realmente gostar das pinturas de Khristina.
-São sim. Muito belos, por sinal. – Susan admirava com certo carinho o quadro que a amiga havia pintado. Tão bem detalhado e tão bem pintado...
Era de fato, belo.
Bom, chegando à sala de jantar, viu a mesa cheia de coisas que pareciam extremamente deliciosas. Chegou até a salivar com um pouco mais de intensidade, mas é claro que disfarçou. Não queria que o filho passasse vergonha mais uma vez. E falando nele, viu que observava algo perto dali. Curiosa, seguiu seu olhar, descobrindo um grande, bonito,negro e enfeitado com rosas, piano de cauda.
Era o sonho do filho dela:Um piano de cauda daqueles. Com as rosas e tudo mais. Já havia visto Joseph desenhando um para ele. Ela sorriu para ele e ele a retribuiu, com uma cara de criança animada. É claro que ele estava tentado a sentar ali e começar a tocar, mas não sabia se isso acordaria os donos da casa. Mesmo que não ligasse tanto, não queria receber reclamações dos pais e deles próprios. Muito menos daquele, ugh, Vincent.
Nem sequer queria pensar nele. Só queria sair dali logo. Era chato e irritante. Mas sempre mudava de ideia ao ver os sorrisos presentes nas faces de seus pais. Se importava tanto com eles...Tanto a ponto de sacrificar-se daquele jeito e agüentar aquele loiro idiota. Por que o desejava tanto? Para experiências ridículas?
O masoquista era Gallahad! Mas é claro que não o deixaria tocá-lo mais uma vez. Se ele encostasse um dedo no SEU Gallahad, o cara morreria. Não importava como, mas morreria. A mesma coisa para aquele lobinho que ficava sempre em seus pés, murmurando coisas que não conseguia entender direito. Ninguém, NINGUÉM, tocava em seu passivo. A não ser ele,é claro.
De qualquer forma, era meio humano, tal como Susan era uma total humana. Sentou-se junto com ela e começaram a comer, sem fazer muita cerimônia. Só com o devido respeito que tinham à casas de outras pessoas. Afinal, quase nunca eram convidados para ir a casa de alguém. É claro que o ruivo culpava-se por isso, mas quem manda a maioria dos humanos ser tão hipócrita e nojenta?
Argh. Não fosse por Susan, acharia que todos não prestavam. Assim que terminado, agradeceu aos devidos servos que os levaram até lá, também sem muita cerimônia. Na verdade, eram até bem casuais, coisas que os servos dos Wladimir não eram acostumados. Eram acostumados com a gentileza louca de Khristina, a seriedade de Walter e a ironia grossa de Vincent.
Eram gentis, apesar de tudo, esses visitantes. Tudo bem que só conheceram dois deles, mas até agora já estavam a gostar dos dois, ao menos um pouco. Sentiam-se um pouco mais livres. Bem, Susan estava bem animada agora. Principalmente por ter comido algo com um sabor tão bom. Resolveu conversar com as cozinheiras que ali tinham, só por conversar mesmo. Ela era sociável. Thomas foi direto para o piano, só se torturando por apenas poder observá-lo. Era de fato, muito tentador estar ali, na frente do piano de seus sonhos, só podendo observá-lo. Imaginava se alguém daquela família poderia tocá-lo como ele fazia. Provavelmente sim, mas não tinha certeza.
-Se o senhor quiser tocá-lo, o senhor tem a permissão, senhor Thomas. – Disse o mordomo.
-Huh? – Thomas mal prestou atenção, admirado com tal perfeição à sua frente. – Eu posso?
-Sim. Os mestres Wladimir sabem de sua habilidade para tocá-lo, e sempre gostaram desse piano, apesar de nenhum deles saberem tocá-lo. É como se fosse um objeto passado de geração a geração.
-Entendo...Bem, eu posso mesmo tocá-lo?
Os olhos do ruivo pareciam brilhar, encantado com tal objeto. Era simplesmente lindo e parecia tão bem conservado. Só de olhar já se derretia internamente, contendo-se para não atacá-lo ali mesmo. Mas bem, todos pararam para olhá-lo, mesmo que o próprio não tivesse percebido. Sua mãe, com um sorriso no rosto, olhava para ele com orgulho. É claro que amava quando ele tocava. Achava-o tão talentoso com isso.
As cozinheiras também o observavam, percebendo o orgulho que a moça ruiva parecia ter do filho. Elas sorriram junto, esperando que o mordomo respondesse a pergunta do jovem.
-Sim, jovem senhor. Eles mesmos deram a permissão. Pessoalmente. – Não mentia. Eles haviam mesmo feito isso.
Um sorriso branco,brilhante e feliz estampou-se no rosto do ruivo, que praticamente saltou para o banquinho, mantendo a postura, abrindo a tampa do piano. Era pesada. Ao ver as teclas, não se conteve. Atacou-as sem dó, produzindo uma música bela aos ouvidos dos que ali estavam presentes. Tranquila,calma, sem erro algum. Parecia uma música inventada na hora, mas parecia tão específica para ser... Apesar de que sim, ele a compôs exatamente naquele momento.
Estava bem inspirado.
Não demorou para o doce som ser ouvido. Gallahad foi o primeiro a acordar.
-Huh..? Thomie? – Percebeu que ele não estava ali.
Vestiu-se devidamente e seguiu o som que ouvia, caminhando a passos nem tão rápidos para a sala. Viu o ruivo, com uma cara tão feliz, tocando o instrumento que mais gostava de ouvir e os outros seres ali, só ouvindo-o e observando-o. Olhou a expressão de Susan por alguns momentos. Ela estava com os olhos fechados, um sorriso no rosto e balançando de leve. Tal como as outras duas mulheres dos seus dois lados.
O mordomo, também com um sorriso, observava os dedos de Thomas a moverem-se pela extensão preta e branca, imitando-o com os seus próprios. É claro que disfarçadamente. Bem, é claro que eles o perceberam, mas não pareceram querer parar de ouvi-lo só para olhar para o lado. Susan e Thomas nem precisavam, com aqueles olfatos invejáveis. Acabou por contagiar-se e sorriu também, indo para uma cadeira junto do amado. Sentou-se ali e fechou os olhos, observando cenas em sua mente. Eram cenas meio poéticas pro seu gosto, por que era acostumado a pensar, mas ninguém disse que não gostava das mesmas.
Toda vez que ele tocava ficava assim, devaneando. Coisas felizes ou tristes, poéticas ou dramáticas. Ele era sempre tão perfeito usando os dedos naquele instrumento que ficava com certa invejinha. Era perfeito.
Os Wladimir também acordaram ao ouvir os barulhos, mas estes não os incomodavam. Pelo contrário. No escuro quarto onde Khristina e Walter estavam, dava para ouvi-lo perfeitamente. Khristina apoiou a cabeça no ombro do marido e este entrelaçou um de seus fortes braços ao redor do pescoço dela. Ambos devaneando com o som produzido pelo que chamariam de sobrinho, mesmo sem serem lá parentes.
Vincent acordara também, junto com Aiden. Bem é claro que sentiu-se um pouco incomodado por acordar de dia, mas o quarto estava escuro. Não ligou tanto. Apenas imaginava quem estaria fazendo som tão belo. Bem, com certeza algum dos Riverlands, pois nenhum de sua família sabia tocar de tal forma. Era tão bom ouvir. Tão relaxante.
Quis até arriscar-se a se levantar, mesmo com a claridade do dia. Apenas quis. Não era tolo a ponto de se queimar até a morte por causa daquele sol maldito. Até que ouviu alguns passos. Eram rápidos e precisos...Provavelmente do mordomo. Alguns segundos depois, murmurando algo sobre os passos terem estragado aquele momento de música, ouviu sua porta sendo batida.
-Senhor Vincent?
-Que é? – Grosso como sempre.
-Seus pais mandaram lhe avisar que estarei fechando as cortinas de toda a casa, isso significa que os três poderão sair durante este tempo.
-Ah, sério?
-Sim, também estarei destrancando a porta de seu quarto, se me permite. – Destrancou a porta, deixando Aiden e Vincent livres.
“Poderemos sair?” – Ele pensou. “Bem, eu realmente quero saber quem tá tocando aquele piano..” – Lentamente pôs os pés no chão. – Vamos, Aiden.
-S-Sim, Vincent. – Ele gaguejou, fazendo o mesmo e o seguindo após o ato.
Os quatro, Vincent,Khristina,Aiden e Walter, desceram as escadas, todos seguindo os doces e belos sons que o piano que Thomas tocava produzia.Os dois adultos, é claro, esperavam que fosse o adolescente, mas não Vincent. Por que tinha de ser ele? Alguém tão, ugh, nem sabia a palavra certa, tocar algo tão belo para seus ouvidos? Como podia? Onde estava a lógica???
Joseph havia descido um pouco antes deles e encostado numa parede próxima com o caderno de desenhos na mão. Sempre que o filho tocava sentia-se inspirado. Logo, aquilo tornou-se uma sala lotada de pessoas, só observando o ruivo a tocar.  Ele percebera o cheiro dele, de Vincent, mas ignorou. Não pararia por nada de tocar aquele piano, mas Susan, claro, incomodou-se um pouco mais. Com um ar meio protetor, ela se aproximou mais do filho, mantendo certa distância ao mesmo tempo, só para vigiar o que aquele loirinho faria.
Assim que a música composta acabara, Thomas suspirou. Ele se virou e olhou ao redor. Não esperava tanta gente, apesar de saber que tinham tantos cheiros diferentes. Quase imediatamente corou, desviando o olhar e com um sorriso tímido. Todos eles sorriam para ele, exceto Vincent claro, mas ele era o único. Até mesmo Aiden sorria, achando que aquilo tinha sido belíssimo.
-Você toca muitíssimo bem, Thomas. – Disse Walter, com certo orgulho no rosto também. Estava ao mesmo tempo, um tanto emocionado,mas nada demonstrava.
Khristina aplaudia com as mãos finalmente livres, mas era segurada por Walter para que não avançasse de tão ansiosa que estava.
-Você tem sooorte, Susan. Seu filho tem um talento belííssimo! – Ela afirmou.
-O-Obrigada, Khristina.
-Por que os dois não fazem um dueto? – Essas foram as palavras de Joseph, que lembrara que a esposa trouxe consigo o tão amado violino.
-D-Dueto? – Susan corou. Não esperava por isso.
-Faz tempo que não ouço você tocar, também. Só quando não estou por perto você toca.
-Ah, é-é? – Ela gaguejou, meio sem jeito. Olhou para o filho, que balançava a cabeça positivamente num modo de tentar convencê-la. Ela suspirou. – Tááá. – Inflou as bochechas.
Os outros sorriram para ela e brincaram dizendo “Ê” como celebração. Esperaram até que ela voltasse, com o negro e bonito violino em suas mãos finas e enfaixadas, como sempre fazia antes de tocar. Tratou de pegar o arco e o instrumento, esperando que o filho começasse. De fato, ele o fez. Ela começou logo em seguida.
Os dois faziam um som profundamente solene, tranqüilizante, deixando todos ali boquiabertos. Susan, apesar de não tocar há algum tempo, continuava extremamente afinada. Sabe-se lá como. Talvez, como Joseph dissera, estivesse tocando escondida.  Meio que com o tempo ela se sentiu a vontade, deixando que os sons do violinos tocassem seus tímpanos, deixando-o penetrar ali.
Era estranho ver como ela não tinha perdido a habilidade e mais estranho ainda ver os Wladimir acordados de dia. Mas as cortinas estavam fechadas. Ficariam acordados até que o dueto de mãe e filho acabasse. Era muito bonito, Thomas e Susan pareciam extremamente sincronizados e sua harmonia era perfeita.
Até Vincent, mesmo com as sobrancelhas franzidas, chegou a fechar seus olhos por alguns instantes, deixando sua curiosidade para os experimentos em Thomas diminuírem, só um pouquinho, pois sabia que todos os seus acompanhantes o vigiavam. Tinha de pegá-lo quando estivesse dormindo, sem que seus próprios pais percebessem tal ato.
Todos se encantaram com a melodia, mas infelizmente a mesma acabou. Chegaram até a aplaudi-los, deixando os dois ruivos mais vermelhos ainda. Gallahad meio que o agarrou, olhando para Vincent com uma cara traduzida de: “Saia, vadia. Esse daqui é meu.” Um sorriso sarcástico estampado em seu rosto provava isso.
-Vocês são muito talentosos. – Disse Walter. – Deviam usar essa habilidade em concertos.
-N- Nós não somos tão bons assim... – Disse Susan.
-Existem melhores...- Completou Thomas.
-Pfft, que é isso? – Disse Khristina, sorridente. – São muito bons siiiim.
Os dois coraram mais e desviaram o olhar, com tímidos sorrisos em seus rostos queimantes.
-O-Obrigada.
-Obrigado.
Disseram os dois, simultaneamente. Thomas levantou-se da cadeira que estava e o mestiço ainda estava agarrado à seu pescoço, com uma carinha sarcástica,manhosa e orgulhosa, olhando fixamente em seus olhos vermelhos vibrantes.
-Você me dá orgulho assim, Thomie – Ele disse, fazendo biquinho.
-Sério? – Ele respondeu, rindo levemente.
As pessoas ali presentes, ora aproveitando que estavam acordados começaram a conversar, enquanto os adolescentes andavam de volta para seus quartos, um atrás do outro. A questão era que eles praticamente se detestavam.
Vincent podia até aproveitar que estava atrás dele e o capturar, mas sabia que Joseph escutaria tal ato, tal como Susan cheiraria. Droga. Teria de esperar todos dormirem. Todos mesmo. O problema é que seus pais dormiam ao dia e os pais dele à noite. Estava, certamente, em desvantagem.
Caminhavam pelo corredor, também vermelho, at[e chegarem em seus devidos quartos, que por coincidência ou não, eram um ao lado do outro. Imaginava se ele sabia comunicar-se pelo código Morse. Bom, poderia até ser um extra da experiência. Ainda faria algumas ameaças, só para testá-lo.
Chegou próximo da parede, já cerrando um dos punhos, começando à “Conversar” com ele logo em seguida. Desistiu das ameaças. Talvez, se ganhasse sua confiança, seria mais fácil de conseguir o que queria.
-Thomas?* - Falava em código Morse.
Para a sua surpresa, ele sabia falar de tal maneira.
-O que você quer?*-Respondeu-lhe, sem lá tanta educação.
-Me dói admitir, mas você toca muito bem.*
-Você acha? Hm.. Obrigado, eu acho.*
Aiden e Gallahad não entenderam muito. Haviam se esquecido da existência de tal código, sem nem imaginar o motivo de estarem batendo na parede com certo ritmo.
-Que está fazendo, Thomas? – Disse o mestiço, confuso.
-Falando com o Wladimir.
-Batendo na parede? – O mestiço perguntou, irônico.
-Existe algo chamado código Morse. – Ele respondeu, também irônico.
-Ah, agora faz muito mais sentido.
O ruivo riu, achando tal frase engraçada por algum motivo.
-Que está fazendo agora, Riverland?*
-Nada.*
-Ah,bom. Já que o assunto morreu,uh, Bom dia.* - Era o mesmo que “Boa Noite” para Vincent.
-Bom dia.*
Logo, assim que ambos se separaram,voltando à seus devidos passivos, deitando-se junto deles. Vincent tornou a dormir enquanto Thomas tentava fazer o mesmo, mas nem mesmo o tédio que sentia o ajudava. Suspirou pela frustração. O mestiço estava do seu lado, é claro que percebeu isso. Aproximou-se dele de uma maneira lenta, sem fazer barulho, e assim que estava próximo o bastante, agarrou-o, sorrindo para ele.
-Que tédio hein, Thomie? – Ele riu de dele.
- Nyeh.
-Aqui, deixa eu te ajudar. – Afastou os cabelos dele de seu pescoço.
-Não. Seria minha vez agora, senhor Gallahad. – Tampou a boca dele, só por brincadeira mesmo.
-Haha, eu não ligo. – Mordeu a mão dele, deixando que o sangue escorresse em sua boca e garganta.
-Maldito. – Deixou que ele sugasse seu sangue, de qualquer forma.
Mesmo que ainda o estivesse mordendo, Gallahad sorriu, apertando mais a mordia, só para der, sem se importar que o líquido vermelho dele escorresse pelos seus braços. Adorava, aliás, quando isso acontecia. Era bom ter o cheiro de sangue mestiço dele em seu corpo frágil e masoquista, sedento por sangue. O sangue DELE somente.
Assim que o mestiço soltou-o, Thomas o derrubou, prensando-o no colhão para ter um tipo de vingança. Ele ignorou as contorções do rapaz e mordeu o seu pescoço em pena, imediatamente começando a sugar seu sangue. Gostava muito de ter o sangue dele escorrendo por sua pele;por sua garganta, ouvindo seus suspiros e gemidos abafados.
Sorriu ao terminar. Os olhos vermelhos a se destacar em meio a escuridão daquele quarto e o cheiro de sangue a ressoar pelas paredes do mesmo. Podia possuí-lo ali mesmo, mas ia ter que segurar. Por uma maldita semana! Argh!
-Droga..! – Ele disse, batendo com certa força no colchão.
-O que foi?
-Você sabe.
-Ah, então você queria mesmo,né, Thomie? –Ele riu, fazendo uma cara que sabia que o seduzia, só para provocá-lo.
-Não me olhe com essa cara.
-Senão o quê? – Gallahad e sua língua incontrolável.
-Pare. Estamos na casa de outra pessoa.
-Mas ninguém disse que não podemos sair... –Ele inflou as bochechas, puxando Thomas mais para perto e lambendo o sangue que ainda escorria no seu queixo.
O ruivo desviou o rosto com a ação, meio corado. Se bem que...Ele estava certo. Não tinha nada que os proibisse de sair. Mas para onde iriam? Era uma boa pergunta. Estava certo, é claro, de fazer a mesma para ele.
-Mas para onde iríamos, senhor manhoso?
-Boa pergunta.- Gallahad desviou o olhar.
Os dois frustraram-se e suspiraram, mas não saíram daquela mesma posição.
-Talvez...Só um pequeno foreplay?
-Talvez. Se você conseguir me deixar com mais vontade do que já estou. – Ele sorriu, deitando-se ao seu lado finalmente, incapaz de acreditar que ele sequer tentaria.
Gallahad bufou e murmurou reclamando, nyeh para você Thomie, por que era tão teimoso? Bufou de novo, resolvendo consigo mesmo se tentava ou não seduzi-lo. A preguiça o consumia. Que trágico. Acabou por dormir mesmo, tal como o ruivo ao percebê-lo inconsciente ali.
Enquanto eles dormiam, a conversa continuava lá por baixo entre os adultos. Tudo bem que alguns deles já tinham mais de uma centena de anos, mas que podiam fazer? Eram amigos a tanto tempo, é também era a primeira visita que Susan fazia a amiga. Geralmente só conversava com ela por telefone ou pela webcam que possuía.
Não demorou para que um certo tantinho de luz aparecesse, distraindo os três vampiros completos ali presentes. Susan não percebeu de primeira, fazendo uma cara confusa e pendendo a cabeça um pouco para o lado.
-O que houve?
-O sol.
-Huh?
-Susan uma das cortinas abriu.
-Aaah. – Ela olhou para trás, vendo a cortina principal aberta e logo depois olhando para Khristina, que se escondia atrás do marido por ser a mais pálida, e também a mais velha e mais frágil, dali.
Ela ficou um tanto preocupada, mas lembrou-se de poder andar sobre a luz sem problemas. Sempre esquecia-se disso por morar com dois vampiros em casa, só andando com eles durante a noite por assim dizer. Ela riu consigo mesma e foi até o lado de fora da casa, subindo até o nível da cortina aberta e fechando a mesma, não querendo que o mordomo, tão gentil, tivesse trabalho. Num instante desceu, mas acabou tropeçando e terminando por cair dali.
Não foi lá uma queda bonita. Ela deu um jeito de torcer o pé direito. Bem feio.
-Eu e minha desastrosa personalidade. AH! – É claro que doía, e muito! Por que tinha que ser humana justamente nessas horas?
Os servos dali logo vieram ajudá-la pondo-a encima de uma poltrona.
-Não se preocupe comigo, já sofri coisa pior. Acho que consigo ajeitar sozinha. – Ela sorriu gentilmente para eles.
Nem diga isso, moçaa. – Respondeu Khristina por eles, arriscando-se a andar até ela. – Cuidarei eu mesma disso. – Ela sabia uma ou duas coisas de anatomia, então sabia como ajudá-la naquela situação específica.
-Realmente não precisa, Khristina.
-Eu insisto!!
Eles não se lembraram muito na hora que Khristina era frágil e louca, e que seus braços estavam soltos, ainda meio estranhos por causa do que acabara de acontecer, mas não demorou muito para uma das cozinheiras se tocar da situação.
-Uh, senhor Walter!
-Sim?
-A senhorita Khristina. Os braços dela.
-Oh céus. – Ele se tocou logo e correu até ela. –Khristina!
-O que foi Walter? – Ela fez uma cara de nervosa, sem entender.
-Pare, agora. Nós ajudaremos Susan, mas pare.
-Por quê? Posso saber? – Ela se levantou, meio agressiva.
-Esqueceu-se disso? – Ele a puxou um pouco para perto de si, mostrando a ela os sinais de quebra em sua pele. Era como vidro, tinham algumas rachaduras. Um simples movimento poderia quebrá-los.
-Desculpa... – Ela disse, olhando para o lado.
Susan não entendia. Não tinha uma audição tão boa quanto a de Joseph, nem visão tão boa quanto a de Gallahad. O que havia no braço dela? Preocupava-se um pouco, ignorando a dor que sentia no pé direito.
-Khristina? – Ele perguntou. – Você está bem, querida?
-Ah, sim, sim, Susan. Eu estou muuuito bem. – Ela disse com o típico sorriso em seu rosto. – É só o Walter preocupando-se a toa com iisto aqui. – Ela lhe mostrou as rachaduras que tinha.
-Khristina...! O que houve com seus braços??
-Estão rachados por causa de Vincent. – Disse Walter, respondendo por ela.
-Huh? Do seu filho?
-Sim. Vamos dizer que ele nasceu numa situação crítica.
Susan estava mais preocupada com a amiga do que consigo mesma. Na verdade nem ligava tanto para si mesma, tanto que até se levantou e andou até ela, melhor, mancou até ela.
-Desculpa, Khristina. Eu não sabia disso.
-Nah, queriida. Não precisa ficar assiiiim. Não foi culpa de ninguééém. –Ela se aproximou e encostou-se na ruiva, que a abraçou com certa fraqueza, com medo de quebrar os braços dela.
-É por isso que seus braços vivem presos no vestido?
-Sim.
-Entendo...
Um momento de silêncio percorreu por todos os cantos neste momento, sem que alguém ousasse quebrá-lo. Estava um tanto tenso também, até que Susan pensou um pouco e resolveu ousar tal ato.
-Uh, vocês deveriam voltar a dormir. Ainda está de dia...E tenho quase certeza que dormiram pouco.
-Mas Suuuusan.
-Nada de “Mas”, Khristina. Você sabe que eu estou certa, dessa vez.
A mulher loira inflou suas bochechas, como se fosse uma criança.
-Táá. Vamos, Walter. – Ela puxou-o com a ponta dos pés, já que andava descalça.
Walter a seguiu lentamente pelas escadas, entrando em seu devido aposento junto dela. Joseph ainda estava calado, concentrado no desenho que havia começado poucos minutos atrás.
-Joseph?
-Hm?
-Como está o desenho?
-Por que você mesma não vê? – Ele disse, sorrindo ao olhar para ela.
Ela se aproximou, obedecendo ao pedido indireto dele para que se aproximasse, acocorando-se a sua altura e vendo o que ele desenhara: Ela própria e seu filho, tocando juntos novamente.  É claro que a hiperativa ruiva corou no mesmo instante que reconheceu tais rostos.
-J-J-Joseph, vo-você não p-precisava ter feito isso..! – Ela disse, com um sorriso meio torto e a cara queimando, parecia estar usando um corante vermelho.
-Não precisava? Sério? – Ele disse irônico. – Que pena, acabei fazendo. Desculpe. – Ele estava brincando é claro. Teria feito de qualquer jeito. Afinal, estava inspirado!
-N-Não se desculpe. – Ela olhou para o lado, inflando as bochechas dela.
Ele riu e beijou uma das mesmas de leve, desinflando-as.
-Por que não sai para passear um pouco? Tenho absoluta certeza de que você nunca viu neve na vida.
-Não vi mesmo não. – Ela retrucou, um tanto mal educada, mas não muito.
-Então vá. Vá vê-la e divertir-se como eu um dia já a senti.
-Que frase profunda, Joseph.
Ele riu, lembrando-se de sua época de humano. Era bom sentir alguma coisa que não fosse dor. Mal lembrava dos sensações frias, quentes ou de qualquer outra temperatura. Afinal, era um corpo morto que estava usando. Um mero ‘frasco de vidro’ que quebra por qualquer coisinha.
-Vá, Susan. Ficarei pelo quarto, mesmo sem conseguir dormir. Esse fuso-horário me mata um dia.
Ela franziu um pouco as sobrancelhas para cima, aproximando-se dele e dando-lhe um beijo na testa, guardando para si a cara de surpresa e a repentina vermelhidão que surgiu em seu rosto pálido e sério. Ela sorriu mais uma vez, indo até o quarto pegar algumas roupas mais confortáveis que a deixassem aquecida pela temperatura fria ali fora.
Logo ela saiu, andando pelos caminhos desconhecidos e brancos, tão bonitos à seus olhos esverdeados e curiosos. Ela sorria para as pessoas que por ela passavam, as vezes não tendo o mesmo retribuído, mas parecia uma criança a andar por um parque de diversões. Realmente se divertia pelas camadas fofas e alvas da neve, com o pé já melhorzinho.
O máximo que acontecia é dela mancar, nada mais que isso.
Algumas crianças chegaram a pedir para brincar com ela na neve, fazendo aquelas famosas guerras de bola de neve que ela tanto via na televisão quando criança. Era bem divertido. Passou o dia lá fora, se cansando para chegar em casa, tomar um bom banho e cair na cama.
Andou pelos mesmos caminhos que veio, milagrosamente com a perna do mesmo jeito que saiu, chegando até a grande mansão em poucos minutos. Ela bateu na porta é claro, não era mal educada. John e Maria a ensinaram bem quando pequena.
Foi atendida mais uma vez por Walter. Já estava escurinho, então não tinha mais problemas deles saírem.
-Bem vinda de volta, Susan.
-O-Obrigada, Walter. – Ela disse, arfando. Realmente passou muito tempo se cansando. Praticamente se jogou no chão quentinho daquela casa. –Chão queente, que saudade. – Ela fez graça.
Os que estavam presentes ali, que para variar eram todos, riram de sua palhaçada. Exceto Vincent. Era muito cara dura para essas coisas, principalmente com humanos. Ele e Aiden estavam afastados do grupo que ali se formara, andando em direção ao laboratório para ‘cuidar’ de suas cobaias. Na verdade, iria ficar ali até ter certeza de que estariam dormindo. Estava muito determinado a pegar Thomas enquanto este dormia e a se trancar ali, impedindo que os outros entrassem, pela semana que viria. Talvez mais outra. Talvez até que todos morressem.
Era fascinado por esquizofrênicos, e é claro que de vez em quando tinha as suas correntes alucinações, mas era facilmente acordado por Aiden. O vampiro bufafa e se fazia de mimado toda hora, murmurando de que queria o esquizofrênico a qualquer custo, ver até que ponto ele seria capaz de agüentar a dor que lhe causaria.
Observava os convidados entretendo-se com seus pais e se enojava ao ver a mãe de sua próxima cobaia toda suada daquele jeito.Ela não tomava banho, por acaso? Argh, era irritante ter humanos em sua presença.
-Ah, Khristina?
-Sim, Susaaan?
-Onde fica o banheiro? Eu realmente necessito de um banho. – Ela fez uma pose dramática só para ouvir a outra rir.
-Lá em cima, duas portas depois do quarto de Vincent. – Ela respondeu aos risos pela pose da ruiva.
-Valeu!! – Ela fez mais uma pose, pondo os dois polegares para cima. O famoso “Joinha”.
Ela subiu as escadas e tomou um longo banho, avisando que logo depois iria para o quarto dormir por estar muito cansada. É claro que Vincent ouviu isso.
“Ótimo. Uma a menos. Ainda faltam mais quatro.” –Ele pensou, ainda com a intenção de pegar Thomas nessa noite.
Ele os observava pela fechadura de sua porta. Um a um, atrapalhando seu desejo, sem ele notar o ciúme que em Aiden crescia.
-Vincent. – Ele disse, com um tom meio possessivo e manhoso para distraí-lo.
-O quê, Vincent? – Ele não parou para olhá-lo. Praticamente só mexeu os lábios.
-Desde que você entrou que não sais daí. Você não vai cuidar das cobaias hoje?
-Aiden, eu não quero saber deles. Eu quero saber do Riverland.
-Oh... – Ele ficou meio triste com a frase respondida por ele. Será que havia se esquecido de Aiden? – Desculpe atrapalhá-lo... – Aiden disse, afastando-se lentamente, esperando que ele percebesse.
-Ahan.
Ao perceber que ele não iria mesmo virar-se para ele, chuto o vento e foi descontar a raiva em sua própria cela, batendo em tudo que poderia encostar. Era um lobo. Era normal que ficasse abusado assim.
Vincent apenas ficou ali, observando os adultos se afastarem um por um, deixando Thomas e Gallahad finalmente sozinhos. Finalmente. A oportunidade perfeita. Mas não podia fazer isso sozinho, sabia que o outro mestiço o defenderia.
-Aiden—Ele disse, achando que o mesmo ainda se encontrava atrás de si. – Aiden?
Ele saiu andando pelos corredores do laboratório, chamando pelo seu nome, sem fazer ideia do porquê de ele ter sumido. Até que chegou em sua cela, toda destruída, e ele lá encolhido, fazendo sons de choro. Imediatamente se preocupou, entrando na cela lentamente.
-Aiden?
Quando este ouviu a voz do loiro, levantou um pouco a cabeça para olhá-lo, mas logo voltou a posição que estava.
-...Sim?
-Preciso de sua ajuda agora.
-Pra quê? Você não está interessado em mim, mesmo.
-Huh? Ah... – Lembrou-se daquilo que havia dito. – Isso é por causa do que eu disse antes, Aiden?
Ele se calou, virando um pouco o rosto que estava ali encostado. Enfim Vincent percebeu que ele estava com ciúmes.
-Você...Você está com ciúmes, Aiden? – Ele perguntou, meio arrependido do que havia dito.
-Q-Quem está com ciúmes? – Ele franziu as sobrancelhas.
-Aw, que fofo. – Ele se aproximou. – Desculpe pelo que eu disse, Aiden. –Ele o abraçou, apesar da posição que ele se encontrava. – Você continua sendo meu preferido. O Riverland é só algo passageiro.
-Hunf.
-Deixe de se bancar difícil. – Ele sorriu, apertando-o um pouco. – O que posso fazer para tirar esse seu ciuminho?
-Hunf, não sei. – Ele inflou as bochechas e fez biquinho.
-Ah não? Mas eu sei. – Ele o tocou onde sabia que ele gostava. – Eu sei exatamente como. – Ele deu um sorriso irônico e esqueceu-se de Riverland por essa noite.
Por essa noite.
Bem, para um resumo, a semana foi um tanto quanto a mesma coisa. Todos conversando, de vez em quando, passeando, mas praticamente nada além disso. Vincent sem nenhuma outra oportunidade para capturar o Riverland. Apesar de tudo não se arrependia do que tinha feito com Aiden. É claro que não o deixaria de novo com ciúmes, apesar de tê-lo achado a coisa mais fofa do mundo. É claro que ele não deixaria de ser seu preferido.
No penúltimo/último dia, já que era de madrugada, por um milagre todos resolveram dormir, só para acordar no mesmo horário em que Susan,Joseph,Gallahad e Thomas iriam: De manhã, mas é claro que Vincent não. Pelo contrário. Algumas horas antes, sabendo do fato que aconteceria, pegou a cópia da chave do seu próprio quarto, tal como a do de Thomas, e quando teve certeza de que todos estavam a dormir, foi até o quarto dele.
Ele era fofo enquanto dormia, hah, quem diria? Muita ironia.
Pegou-o com cuidado para que ele não acordasse, tendo a ajuda de Aiden para que o outro lobo não acordasse, e levou-o até a porta de metal de seu laboratório.  Ele pôs a senha na mesma e o puxou para dentro ainda com cuidado, levando-o direto para a cela que lhe tinha reservado.
Chegando lá, Aiden sentou-se num canto, enquanto Vincent prendia o ruivo mestiço numa cadeira. Estando ele completamente preso à ela, tratou de acordá-lo com uma furada na perna com a própria garra dele. Ele não acordou por completo. Era meio sonâmbulo. Talvez fosse isso que causasse a maior parte de sua esquizofrenia.
-Olá, Thomie.
-Huh? Onde? Como? – Ele perguntava para si mesmo, não vendo nada nitidamente. Na verdade, estava tendo certas alucinações e os sussurros de seus pesadelos o assombravam. Mas nada dizia, nada fazia. Apenas tremia.
-Como você está?
Ele via um vulto com a cabeça meio amarela passar por sua frente, pendendo seu corpo para o lado e movendo os lábios, dando para ver pontos brancos e afiados aparecendo por baixo dos mesmos. Ele abaixava a cabeça e os olhos semicerrados incertos do que viam. Não estava sabendo de nada.
-RESPONDA-ME! – Vincent lhe deu um tapa, dando um susto no mesmo.
Bem é claro que o ruivo estava meio esquizofrênico. Com o tapa levado, os sussurros ficaram mais intensos e ele começou a contorcer-se de leve na cadeira que estava preso. Em sua cabeça, estava preso algum lugar no chão, com coisas afiadas perfurando a sua pele pálida e meio rosada. Ele estava trêmulo, sem ter muita ideia do que estava acontecendo ao seu redor.
-Ah, entendi. Só consegue me ouvir, não me responder, não é seu inútil? – Disse Vincent, sorrindo de maneira sarcástica.
Aiden o observava apenas.
-Vamos! Fique perigoso! Torne isso divertido!
Os sussurros em seus ouvidos ficavam cada vez mais audíveis e entendíveis:
“Mate-o,mate-o, mate todos!”
Esta frase era dita a todo instante, deixando a cabeça dele confusa e meio agressiva. 
-Me solte... – Ele disse, tendo consciência que era Vincent quem o segurava. Mas estava claro que a esquizofrenia o dominava. – ME SOLTE. Me solte, ME SOLTE!
-Por que você mesmo não tenta se soltar, hein? –Ele pegou uma lâmina e a arrastava lentamente pela perna direita de Thomas, vendo seu sangue mestiço escorrer pelas duas.
É claro que a lâmina se movimentava pela perna dele estar trêmula e incontrolada, mas as amarras que estava usando o impediam de fazer qualquer coisa além de mandá-lo parar ou soltá-lo.
As mãos se mexiam freneticamente, com as garras procurando por algo para arranhar, os olhos agora completamente abertos, mas ainda não nítidos, olhando para todos os cantos com uma fúria contida. O desejo de matar praticamente escorria de suas orelhas, os dentes rangendo provavam isso.
-Hah, quer me matar?
-Q-Quero. Eu quero. – Ele respondeu, perdendo o controle e passando a tentar mordê-lo a todo custo, com a intenção de matar.
-Então tenta! Mestiço nojento, tenta! – Ele se afastava de vez em quando, só para provocá-lo, querendo fazer com que ele se libertasse dali.
-Eu..Não o provocaria tanto, Vicent.
-Cale-se por agora, Aiden. Eu sei o que estou fazendo.
Não, não sabia. Thomas era muito mais forte do que aparentava. Bastou perder o controle que as amarras de suas mãos foram soltas e ele se jogou no chão, arrastando-se até Vincent. Vincent não pareceu tão assustado. Pelo contrário, parecia até louco.
-VENHA! VENHA ME MATAR, RIVERLAND, VENHA!
Thomas se arrastava com certa velocidade e por certa ironia, ou não, suas garras pareciam não se desgastar por estarem sendo arrastadas contra o chão duro e sangrento que ali tinha. Sim, o cheiro de sangue estava presente ali. Só tornou a situação pior. Mesmo sem ser de Gallahad, sangue o atraía de qualquer forma. Arrastou-se até Vincent mais uma vez, com mais velocidade e voracidade também, agarrando-se em sua perna e arranhando-a como nunca, deixando mililitros de sangue serem escorridos.
Vincent tirou a perna dali, mesmo que tenha resultado em cortes mais profundos do que ele estava fazendo. Afinal, é claro que ele tentou segurá-lo. Com força.
Thomas ,agora, sentiu-se incomodado com as amarras que o seguravam e contorceu-se para alcançá-las e arrancá-las com as garras,finalmente ficando em pé. Vincent sorria como louco, provocando Thomas mais e mais e preocupando Aiden mais e mais. Não demorou para que o ruivo se atirasse nele e que ambos travassem uma luta pelo poder, sem conseguirem achar um vencedor por um bom tempo.
Com esse tempo passando e com o tanto de sangue escorrendo, não demorou tanto para que os vampiros percebessem, e principalmente Susan que tinha um olfato muito melhor do que o deles. Ela foi a primeira a se levantar e a correr para a grande porta de metal que , por acaso, só que não, estava trancada.
-ARGH, ABRA ESSA PORTA, WLADIMIR! – Gallahad já chegou gritando, batendo na porta com toda a força que tinha. Não parecia sequer causar-lhe um arranhão.
Os outros três chegaram não muito depois, fazendo o mesmo que Susan e Gallahad: Tentando abrir a porta. Khristina nem tanto por causa dos braços frágeis, mas tentava.
-VINCENT! – Walter parecia furioso. – ABRA ISSO, AGORA!
Enquanto ouviam os berros dos adultos lá fora, os dois jovens ainda brigavam, com Aiden tentando à todo custo separá-los, pois sabia que essa briga não acabaria bem. Percebendo que não conseguiria de jeito nenhum, foi para a porta, tentando se lembrar da combinação exata que o mestre havia colocado ali, milagrosamente não acertando de primeira.
-Droga! – Ele disse, de vez em quando olhando para trás para ver o quão grave a situação estava. Até ossos estavam expostos! Tinha de ser mais rápido.
Após várias e várias tentativas, finalmente conseguiu abrir, deparando-se com uma pequena multidão furiosa que não demorou nenhum instante para entrar e correr até os dois que brigavam.
-THOMAS!
-VINCENT!
Os quatro pais disseram simultaneamente, assustando os dois também simultaneamente.
Como eles tinham mais força, conseguiram separá-los, mesmo com certa dificuldade, afastando-os um do outro com mais dificuldade ainda. Thomas ainda estava esquizofrênico, trêmulo, com o desejo de matar, mas se segurava na presença de sua mãe. Sempre sentia quando ela estava por perto, e mesmo quando estava naquela situação, ela era como um forte seguro para sua mente.
Enquanto os pais do outro jovem, o mais ousado,  reclamavam e brigavam com ele, mas parecia não lhes dar ouvidos. Ele ria como louco, sorria como um, agia como um. Aiden estava assustado com a situação.
-POR QUÊ? POR QUE VOCÊ AJUDOU ELE COM ISSO SABENDO QUE IA DAR NESSA SITUAÇÃO? – Gallahad gritou para ele, bem agressivo. – RESPONDA!!!
Aiden recuou um pouco.
-Eu não sabia...Que ia ser tão grave.
-AH, NÃO SABIA? POIS AGORA JÁ SABE. – Aproveitou e deu-lhe um soco no rosto, mas quase ninguém percebeu. Pensou até em desculpar-se, sabendo que ele ao menos tentou, mas não o fez. Apenas se afastou para junto dos que veio junto.
Logo a manhã chegou.
Os Riverland partiram daquela casa, tristes, e decepcionados com o que tinha acontecido.
Tal como os Wladimir, que apesar de amarem tal família, jamais os convidaria de novo.

Ter filhos loucos não é lá algo fácil de lidar.

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